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História de Parauapebas vai além das aparências

 

Os índios Xikrin, por exemplo, que já ocupavam a Terra Indígena Cateté nas cercanias da Floresta Nacional (Flona) de Carajás, circularam bastante pelo chão de Parauapebas até se fixarem. Aliás, a peregrinação deles – que eram cerca de 280 indivíduos no início da década de 1980 – está para além de quando a mineradora Vale começou a se movimentar para implantar o Programa Grande Carajás (PGC) na mesma década.
Também, o resumo da ópera não é a aterrissagem do geólogo Breno Soares em Carajás, em 1967, quando detectou haver no então pedaço de terras pertencentes a Marabá (hoje Parauapebas) jazidas de minérios de ferro e manganês.

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Então, quando se inicia a “descoberta” de Parauapebas, de fato? A resposta pode ser encontrada em duas importantes áreas da ciência: a Economia e a Ecologia. E não se deve esquecer o fato de que a unidade territorial em que atualmente se assenta o município era parte de Marabá, daí a história real precisar romper as fronteiras geográficas e temporal e ser analisa com critério para que ninguém seja desmerecido em medalha de jubileu.

SÉCULO RETRASADO
Tudo começa em 1872, quando os primeiros nordestinos migrantes (que fugiam das condições de extrema pobreza no Maranhão e da seca no Ceará e no Piauí) e a população já existente se movimentaram no trabalho de extração de látex e de coleta de castanha-do-pará. Eles deram os primeiros passos dentro da mata cerrada, entre vales, serras e colinas, existentes no pedaço do então território de Marabá, hoje Parauapebas.
Entre 1898 e 1919, a infraestrutura montada na época da borracha foi gradativamente transferida para a exploração da castanha, o que foi possível devido ao fato de serem atividades econômicas do mesmo tipo. De acordo com registros de historiadores, os trabalhadores seguiam em caravanas e montavam acampamentos dentro da floresta, mas não suportavam as condições inóspitas do ambiente, que tinha mosquitos para todos os gostos e que lhes acertavam com doenças, por vezes, mortais. As feras da mata e dos pântanos à beira do Rio Parauapebas, como onças, jacarés, sucuris e piranhas, também afugentavam e faziam os trabalhadores desistirem, já que aquele universo era completamente desconhecido, perigoso e diferente da região de onde haviam migrado.

FOTO PIONEIRA
Primeira imagem em Parauapebas é de um tamanduá

Nas duas primeiras décadas do século 20, é registrada outra frente de ocupação do atual Parauapebas, quando aportaram em Marabá diversos migrantes que tomaram o rumo da selva paraense, descendo o Rio Tocantins, para trabalhar caçando caucho, árvore da qual se extrai o látex para fabricação de borracha, produto tão valioso naquele momento.
Ao mesmo tempo, muitos ambientalistas, ecologistas e curiosos também fizeram parada em Marabá, via Rio Tocantins, para desbravar a natureza selvagem da região. Conforme o livro “Fauna da Floresta Nacional de Carajás: Estudos Sobre Vertebrados Terrestres”, uma produção inédita de autoria de diversos biólogos da região e do país, a primeira e mais antiga foto de um animal da região é a de um tamanduá-mirim tirada em 1920, na Flona de Carajás, por pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG). Como a Flona se localiza no município de Parauapebas, e não há registro fotográfico mais antigo, a imagem do tamanduá é pioneira no município. Ela constaria dos arquivos do MPEG.

Ainda na década de 1920, as frentes migratórias para Marabá e que permitiram uma movimentação mais intensa em Parauapebas tinham como foco a extração e comercialização da castanha-do-pará. Nesse período, prevaleceu a migração temporária, em razão da safra da castanha, e os principais indivíduos que circularam nas terras parauapebenses saíam do Baixo Tocantins, no Pará; do então norte do Goiás, hoje Tocantins; e de várias regiões do Maranhão – deste último Estado em maior número.

Na década de 1930, foi registrada nova frente de migração, realizada por garimpeiros que procuravam diamante nos pedrais do Rio Tocantins e, depois, avançavam aos rios Itacaiúnas e Parauapebas. Todos esses migrantes chegavam primeiramente ao burgo de Marabá, que naqueles anos tinha não mais que 3 mil habitantes e 460 habitações, praticamente todas de palhoça e de taipa, conforme escreve o pesquisador Otávio Guilherme Velho em seu livro “Frentes de Expansão e Estrutura Agrária: Estudo do Processo de Penetração numa Área da Transamazônica”.
O mesmo rio por onde maranhenses, goianos e outros paraenses chegavam a Marabá, o Tocantins, o conduziam ao Rio Itacaiúnas, que deságua no Tocantins; e do Itacaiúnas ao Rio Parauapebas, já que este deságua naquele. Via Rio Parauapebas, que cortava a parte de terras que pertenciam ao município de Marabá, coletores de castanha, seringueiros e garimpeiros chegavam e se instalavam no solo parauapebense.

Entre 1939 e 1945, período da Segunda Guerra Mundial, o movimento Parauapebas adentro foi intenso, especificamente na porção norte do município atual. Isso porque a propaganda do governo Vargas, com vistas a atrair trabalhadores nordestinos para a produção de borracha na Amazônia, instaurou o imaginário sobre a Amazônia como “terra prometida”.
A pesquisadora Maria Verónica Secreto, em seu artigo “A Fronteira Amazônica no Governo Vargas: Campanhas da Borracha e Mobilização de Trabalhadores”, descreve um dos cartazes do Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia (Semta), do governo da época, o qual continha um mapa com braçais dirigindo-se para o Norte e uma frase de efeito: “Cada um no seu lugar!”.

DEVASSA
Soldados da borracha também marcharam a Parauapebas

Em Marabá e região, os moradores mais antigos geralmente têm algum parente que foi “soldado da borracha” e que, na procura do produto, se embrenhou nas matas de Parauapebas à procura de caucho e seringueira. A essa época, conforme Otávio Guilherme Velho, os maranhenses estavam deixando de migrar temporariamente para ocupar de vez as extensas terras de Marabá, de quem Parauapebas só ganharia alforria em 10 de maio de 1988.

Na década de 1950, o padre Barruel de Lagenest fez uma pesquisa em Marabá – a primeira de que se tem notícia – e constatou que 65% das pessoas que morriam eram maranhenses, 16% eram goianos e 10% eram piauienses. As mortes estariam relacionadas a doenças contraídas na mata durante os trabalhos de coleta de castanha e extração de látex nas porções oeste e sul do município, esta última porção onde hoje se encontra Parauapebas. As informações constam do livro de Lagenest, “Marabá: Cidade do Diamante e da Castanha”, datado de 1958. Até mesmo os “casórios” da época já eram dominados pelos maranhenses, que respondiam, também, por 65% das uniões na região.

Aliás, os maranhenses posteriores que se instalaram de norte a sul no município de Marabá e, bem assim, em Parauapebas, passaram a desempenhar trabalhos na lavoura e nos castanhais da região. A pesquisadora Maria Antonieta da Costa Vieira nota em sua dissertação de mestrado em Antropologia, “Caçando o Destino: Um Estudo Sobre a Luta de Resistência dos Posseiros do Sul do Pará”, que nos estados do Maranhão e do atual Tocantins ocorriam a concentração fundiária e o seu uso especulativo em função da abertura da Rodovia Belém-Brasília, o que implicou a expulsão de camponeses que migraram ao sudeste do Pará à busca de terras devolutas e de matas para o desenvolvimento da agricultura de subsistência. Isso significa que muitos dos migrantes maranhenses no Pará são frutos da diáspora nordestina intergeracional.
Em Parauapebas, isso é refletido por meio de migrantes maranhenses com idade superior a 60 anos, embora não seja regra. A atração de maranhenses pelo município na atualidade deve-se, entretanto, ao fator mineração, que, direta e indiretamente, fez a população dobrar entre 1991 e 2000 e, mais uma vez, dobrar entre 2000 e 2010, quando ocorreram os censos oficiais.

Aí, chega-se a 1960, década quando ocorre a história em que o geólogo chega a Carajás, “descobre” o minério e todo o resto recontado a cada aniversário municipal. Embora se registre que “os primeiros habitantes” chegaram em 1981 e que a conformação da sede urbana por parte da mineradora Vale tenha incentivado a mobilidade humana na região, é bom lembrar que a própria Vale patrocina o livro “Fauna da Floresta Nacional de Carajás: Estudos Sobre Vertebrados Terrestres”, no qual é relatado o fluxo a Parauapebas de vários pesquisadores e auxiliares de campo que se embrenharam nas matas do município, no final dos anos de 1960 e durante toda a década de 1970, para produzir diagnósticos ambientais relativos ao licenciamento de projetos de mineração.
Ressalte-se que todo o histórico registrado pela literatura sobre Parauapebas, para antes de 1967, leva em consideração o município em sua formação inicial, a qual compreendia as terras de Água Azul do Norte e Canaã dos Carajás. Não é demais lembrar que o município atual sofreu redução de 10.260,37 quilômetros quadrados a partir de 1991, com o desmembramento dos municípios de Água Azul e Canaã – este último em 1994.

Reportagem: André Santos

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