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Parauapebas bate recorde em ‘injustiça’ na renda do trabalhador

Em se tratando de massa trabalhadora ocupada, nem de longe Parauapebas é o município com o maior número de laboriosos do Brasil, haja vista possuir apenas 63.804 pessoas que, com seu suor e sua força, efetivamente geram renda ao município. Ainda assim, em nível de interior amazônico, esse número é considerável, uma vez que é o equivalente a três cidades do tamanho de Canaã dos Carajás entupidas de gente batalhadora.
No ranking nacional, entretanto, Parauapebas é apenas o 187º município com mais trabalhadores num universo de titãs liderado pela cidade de São Paulo, que possui 5.549.787 trabalhadores (87 vezes mais que Parauapebas), seguida pela cidade do Rio de Janeiro, com 2.922.822 pessoas ocupadas (46 vezes mais).
Só para se ter ideia, a capital do Pará, Belém, tem 595.399 pessoas no batente, mais de nove vezes o número de Parauapebas. Isso, também, porque a capital paraense é mais de oito vezes maior que a “Capital do Minério”.


VALOR DO SUOR
Que ninguém se iluda com o número tímido da massa trabalhadora de Parauapebas: a “Capital do Minério” é a que tem os mais produtivos soldados de todo o Brasil. Acontece que seu PIB, de R$ 15.918.216.385,10, tem valor individual por ano de R$ 249.486,18, retirados do suor de cada soldado do labor. Em outras palavras, é como se cada um dos trabalhadores de Parauapebas produzisse em força de trabalho cerca de R$ 250 mil.
Nenhum outro lugar do Brasil, nem mesmo São Paulo, tem tanta gente produtiva assim. Num único dia, o suor derramado pelo trabalhador de Parauapebas vale R$ 683,52 – não a ele, evidentemente, mas a empresas como a mineradora Vale, que, sobre o suor de 10.833 trabalhadores da mineração, exportou cerca de 2,2 bilhões de dólares nos primeiros três meses deste ano.

A capital paulista, por exemplo, terceira cidade mais populosa do planeta e a maior de todo o mundo ocidental, tem PIB de R$ 443.600.101.653,30 (ela é a oitava mais rica do globo). Isso, divido entre seus mais de 5,5 milhões de trabalhadores, equivale dizer que cada um deles contribui com R$ 79.931,01. Logo, um trabalhador de Parauapebas é três vezes mais produtivo, em termos monetários, que um de São Paulo.
O mesmo vale para Belém, que tem PIB de 17.987.323.047,56 e cujo trabalhador produz anualmente R$ 30.210,54. Se um belenense quisesse equiparar-se a um parauapebense, deveria se mexer oito vezes mais para acompanhar o ritmo de produção de riquezas dos guerreiros da “Capital do Minério”.
Nenhum município brasileiro, entre os com mais de 100 mil habitantes, um total de 288, tem trabalhador que gere tanto valor individual no período de um ano quanto Parauapebas. Aliás, entre todos os atuais 5.570 municípios brasileiros, o que chega mais perto de Parauapebas é Paulínia, no interior de São Paulo, onde cada trabalhador produz anualmente R$ 192.988,66.

‘MARABALELA’
Balela pensar que o trabalhador de Marabá, a quarta praça financeira do Pará, ganha o que vale, em termos de produção. Nem em Marabá, nem em Parauapebas, nem em lugar algum. Nem mesmo nas sociedades brasileiras ditas “desenvolvidas”, o salário do trabalhador faz jus ao que ele produz.
Em Marabá, o fosso entre um dia de trabalho e a produção, em reais, desse dia de trabalho é uma imperfeita ilusão. Imperfeita porque a renda média do trabalhador marabaense é de apenas R$ 1.233,02 e nem nos sonhos mais incríveis se igualaria ao PIB per capita, que, para o município, é de R$ 15.427,12. A imperfeição óbvia reside no fato de que essa riqueza total está concentrada nas mãos dos grandes empresários e de empresas sediadas dentro e fora do município.

Ilusão porque, em Marabá, um dia de trabalho de um empregado médio gera R$ 105,84 para a empresa à qual ele vende seus serviços. Ao trabalhador, as migalhas: um dia de seu suor custa, em média, R$ 41,10. Ou seja, ele não recebe nem metade pelo que produz.
Em Parauapebas, o buraco é ainda mais embaixo, com e sem literalmente. O salário médio de um trabalhador parauapebense fica em torno de R$ 1.371,16 ao mês – é lógico que alguns ganham mais e muitos mais ganham menos que esse valor, daí ser média. Um dia de trabalho em Parauapebas tem o preço de R$ 45,71.
E é aí que está a indecência dos números: cada trabalhador do município produz, em média, R$ 683,52 por dia. Isso implica dizer que, de cada R$ 15 que um trabalhador produz, esse mesmo trabalhador vai ficar com mísero R$ 1 e os outros R$ 14 vão para a conta bancária do empregador ao qual vende seu dia de serviço.

O município que se orgulha de ter a massa trabalhadora mais produtiva do Brasil é, também, o mesmo que acocha seu serviçal, explora-o à exaustão e faz dele um alienado marionete em razão de um sistema capitalista predador, canibal, que maximiza cada vez mais o lucro dos grandes e apequena o suor dos muitos apoucados.
Parauapebas é, assim, um excerto perfeito da desigualdade que orgulha, embora a pão e circo, e que, paralelamente a isso, oculta as misérias existentes por trás de números pujantes. É, nas estatísticas de trabalho e rendimento, o município que possui o trabalhador mais explorado do país, outro recorde a acumular.
Um minuto de silêncio ao Dia do Trabalhador. É momento de reflexão.

Reportagem: André Santos

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