Bel Mesquita, uma mulher preocupada com a questão social

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Bel Mesquita, a primeira e única mulher a ser prefeita de Parauapebas (PA) por dois mandatos, assumindo a terceira administração da cidade após sua emancipação política e administrativa em 1988, sempre foi uma pessoa preocupada com as questões sociais. Sua história de vida demonstra isso desde sua adolescência.

Na nossa homenagem de hoje, na série “Entrevistas com Pioneiros”, você conhecerá a história de Bel Mesquita, sua garra, sua luta, sua determinação e sua confiança na força das mulheres de Parauapebas e do Brasil. Uma psicóloga que atuou na Febem de São Paulo, foi Primeira Dama de Parauapebas, presidente da Fundação de Ação Social e Cultural de Parauapebas, presidente do Conselho Municipal de Saúde, prefeita da cidade por dois mandatos (1997-2000, pelo PSDB, e 2001-2004, pelo PTB), deputada federal e Secretária Nacional de Políticas de Desenvolvimento de Turismo, do Ministério do Turismo durante o governo de Michel Temer.


A história

Ana Isabel Mesquita Oliveira, nasceu em 24 de setembro de 1952 em Jundiaí (SP), é filha do industrial Eder Aparecido Mesquita de Oliveira (já falecido) e da professora aposentada Anna Luiza Cravinhos Mesquita de Oliveira, hoje com 90 anos, bem lúcida e residente em Jundiaí.  As irmãs Ana Cristina e Ana Cecília moram em São Paulo e o irmão Eder Mesquita morreu há mais de 10 anos.

Ela teve uma infância tranquila em Jundiaí em uma família muito unida. Brincava de boneca, gostava de brincar no escorregador do Buracão que ficava perto de sua casa e ir para as festinhas com as amigas. “Gostava de curtir as músicas da Jovem Guarda nas casas dos amigos ao som de vitrola”, comentou.

 

Televisão

“Nossa casa foi a primeira da rua em Jundiaí a ter uma televisão e todos iam para lá assistir a programação das emissoras. Era muito divertido”, lembra.

Estados Unidos

Bel sempre estudou em escolas públicas e ainda hoje tem amigos da época do ginásio. Ainda fazendo o segundo grau (hoje, ensino médio), com apenas 17 anos, foi morar em Detroit, nos Estados Unidos, onde ficou por seis meses aperfeiçoando o inglês. “Lembro que quando estava lá o Brasil ganhou a Copa de 1970 e comemorei bastante”, disse Bel, acrescentando que depois retornou para São Paulo onde concluiu o ensino médio.

Febem

Ela passou no vestibular para Psicologia na PUC de Campinas (SP) e depois de formada foi trabalhar na Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor-Febem na capital paulista. (A Febem funcionou por 30 anos e em 2018 passou a se chamar Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente – Fundação Casa). “Trabalhava com o treinamento de pessoal orientando como trabalhar com crianças recém nascidas até aos 17 anos e 11 meses. Crianças abandonas pelos pais e muitos jovens infratores. Foi uma experiência muita rica”, destacou Bel.

Segundo ela, durante o governo Paulo Maluf foi implantada a descentralização dos serviços da Febem e foi trabalhar em São José do Rio Preto, no interior do estado, e em cidades da região, indo de ônibus até Estrela do Oeste e Santa Fé do Sul. “Eram cidades com poucos recursos para investir na área social”, afirmou.

O amor pela psicologia

“Quando morei nos Estados Unidos, a dona da casa era professora e psicóloga e passei a gostar da profissão porque suas ações me chamavam a atenção e vi que queria ser uma psicóloga também, especialmente a psicologia social”, declarou Bel.

O namoro com o Dr. Faisal

Foi realizado um Congresso de Estudantes em São José do Rio Preto, onde se discutia como trabalhar em conjunto para o melhor desenvolvimento social da região, e um estudante chamou a atenção da psicóloga Bel Mesquita. Era o quase médico Faisal Salmen, sempre atento e que ela passou a fazer perguntas para ele: Como vocês trabalham em comunidade? Como é a organização social de vocês? Vocês têm ideia de como a sociedade se organiza sem o apoio do próprio governo? Vocês conhecem a problemática social de uma família?

 

A partir daquele debate começou a surgir uma grande paixão. Mas o casal ainda só falava de questões sociais. “Tinha consciência que não íamos melhorar e nem resolver a situação social das famílias carentes, mas pelo menos amenizar em muito a situação vivida por aquelas famílias da região de São José do Rio Preto com aquela nossa discussão”, frisou.

O casamento

Tempos depois houve um encontro de trabalho – Semana de Medicina, coordenada pela professora Maria Tereza e neste evento de estudantes de Medicina e jovem Faisal era o presidente do diretório estudantil. A amizade se fortaleceu, o amor ficou forte e os dois jovens acabaram namorando e se casaram em 12 de maio de 1982, ela com 30 anos, nove meses a mais que o noivo.

Depois, já formado, Faisal foi fazer residência em Pediatria em Campinas (SP). E mais tarde, por influência do amigo Emerson Miguel Caselli, que já morava em Marabá (PA), decidiu ir para Parauapebas trabalhar no Getat (Grupo Executivo de Terras do Araguaia e Tocantins) no projeto Cedere I, o Centro de Desenvolvimento Regional.

Sem contato com o marido

A esposa Bel ficara em Campinas e o casal se comunicava via radioamador, já que os meios de comunicação da época eram precários, especialmente para quem morava no interior do Pará.  O casal chegou a ficar um mês sem se falar. O ano era de 1984 e Bel então pediu afastamento do emprego na Febem, pegou um avião e foi bater em Marabá. De lá, o amigo do casal a colocou em um Chevette vermelho com dois garimpeiros num e ela seguiu rumo ao Cedere I. “Uma cena marcou muito minha chegada à região de Parauapebas. Quando fomos em direção ao Cedere I a imagem da floresta pegando fogo de um lado e do outro marcou muito minha vida. Era o início do projeto Cedere I e os trabalhadores queimavam o mato nas laterais da estrada. Dava medo passar pela estrada com tanto fogo de um e do outro, mas consegui chegar lá”, lembrou.

Botijão de gás como cadeira

Quando Bel chegou ao acampamento do Cedere I o Dr. Faisal Salmen estava em atendimento. “A fila de pessoas para ser atendidas era enorme, mas o que mais me chamou a atenção foi ver o Faisal sentado em uma tábua colocada em cima de um botijão de gás, sem almofada e atendendo os pacientes”, disse ela.

O casal morou no acampamento da Andrade Gutierrez na área da Palmares. A filha Jihane nasceu em Parauapebas e o filho Faisal nasceu em Jundiaí (SP).

Cachoeira Porteira

Depois, o casal foi trabalhar na Andrade Gutierrez, em Cachoeira Porteira, perto de Porto Trombetas, em uma obra da Vale e depois de um ano retornou para Parauapebas. “Retornei de Cachoeira Porteira reparada para ficar em Parauapebas. O trabalho que desenvolvi na Febem em São Paulo foi fundamental para minha atuação na área social no Pará, ou seja, sair da zona de conforto e procurar solução para as questões sociais que já envolvia muitas famílias”, afirmou.

Emancipação

Bel não participou muito das reuniões sobre a questão da emancipação política e administrativa de Parauapebas, porque estava grávida de Faisal Filho e ficou alguns meses em Jundiaí, São Paulo, onde o filho nasceu. “Mas cheguei a ir para algumas reuniões. Acreditava na emancipação e sabia que o Faisal queria isso”, destacou.

FASC e a Semana da Mulher

Quando o Faisal foi eleito prefeito de Parauapebas em 1988 (e exerceu o cargo no período de 1989-1992), Bel assumiu a presidência da Fundação de Ação Social e Cultural de Parauapebas – FASC e passou a desenvolver inúmeras atividades e envolver a comunidade nas questões sociais. “Envolvia as mulheres de todas as classes sociais para crescermos juntos. A Semana da Mulher foi um marco histórico. Envolvemos todas as mulheres, inclusive as prostitutas da Rua do Meio. Lá, contávamos com mulheres de quase todas as profissões e donas de casa. Algumas se sentiam incomodadas com a presença de mulheres da Rua do Meio, mas com um jeitinho a gente ia desenvolvendo as atividades com o apoio da comunidade. Promovíamos gincanas, teatro, orientação sobre como dar aulas, havia o momento cultural, palestras, educação e saúde. Enfim, foram momentos marcantes”, disse Bel, ressaltando que “como primeira dama entendi que tinha o dever de fazer transformações sociais no município”.

Bel Mesquita foi uma atuante deputada Federal em Brasília

 

Bel, a prefeita

“Como prefeita, investi muito no social visando diminuir as desigualdade social, por entender que você pode plantar, saber como colher os frutos e ensinar como as pessoas podem usufruir desses frutos em seu benefício”, afirmou Bel, acrescentando que Parauapebas é tudo para ela.

A ex-prefeita Bel Mesquita é apaixonado por Parauapebas

 

O destino

Filosofando, Bel Mesquita disse acreditar no destino. “O destino e mostra o caminho, mas não mostra a solução. Você recebe a oportunidade e você decide o que fazer. Eu decidi atuar no social, para tentar evitar ao máximo as dores sociais, especialmente das mulheres que são a força da cidade e do Brasil. Sempre procurei conscientizar as mulheres sobre o valor que elas têm”.

Reunião da 4ª feira

Bel fez questão de ressaltar que no seu governo “foi rigorosa e segura de todos os atos” e lembrou que “toda quarta-feira se reunia com todos os secretários para discutir as estratégias de planejamento. Sempre acreditei no planejamento para que as coisas acontecessem de forma correta”.

Dr. Hildegardo Nunes entrega para a então prefeita Bel Mesquita, em cerimônia em Brasília, o Troféu do Prêmio Mário Covas – Prefeito Empreendedor

 

Educação

“Educação é fundamental em tudo, principalmente na formação das crianças. Por isso, é importante investir na educação na infância e na adolescência. Promovia as reuniões nas quartas-feiras para fortalecer nosso governo e deixar claro que todos juntos poderíamos resolver os problemas da cidade. Uma secretaria sempre dependia da outra, daí a importância de um trabalho conjunto e ordenado”.

Vale

“Entendo que Vale precisa discutir mais seus investimentos e sua responsabilidade social em Parauapebas”.

Mineração

“Parauapebas já é o futuro, mas precisa aproveitar melhor os recursos que vêm da mineração. Mas repito: sem planejamento nada funciona. Mesmo com seus problemas, a cidade continua sendo um local ótimo para se fixar e ser feliz”.

Pessoa realizada

“Me sinto uma pessoa realizada e sou feliz com todas as pessoas que participaram e participam da minha vida no dia a dia. Sei que não existe caminho que não exista buraco, mas você tem que agradecer a Deus pelas oportunidades que ele te dar”, declarou, feliz da vida, Bel Mesquita, que agora vai realizar mais nova etapa em sua vida: morar em Belém com o filho Faisal, ou melhor, Dr. Faisal Filho, porque segundo ela, “o importante é ser feliz e propiciar felicidade para a família e para as pessoas”.

Faisal Salmen

“Quero aqui deixar uma declaração de carinho e admiração a este homem incrível que sempre exigiu de todos que o cercavam o compromisso com as populações mais necessitadas.

Conviver com o Dr. Faisal Salmen, seja como marido, pai dos meus filhos, com o prefeito, deputado e, principalmente, com o médico extraordinário que sempre foi, me engradeceu e ensinou a olhar os desafios com coragem e ousadia!”.

Parauapebas

“Parauapebas, uma cidade gostosa de viver. É a frase que escolhi para acompanhar todos os momentos de minha vida política. Esta é a cidade que amo e que me ensinou a conhecer realmente o compromisso social que eu me propus a viver”.

Por ter chegado a Parauapebas em 1984, ter sido uma prefeita por dois mandatos preocupada com as questões sociais da cidade, ter procurado sempre valorizar a atuação das mulheres na sociedade e por amar esta cidade, mesmo quando ainda era um pequeno povoado, a psicóloga Bel Mesquita é a nossa homenageada de hoje no projeto “Entrevistas com Pioneiros”.

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