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Dona Fiota, a “Rainha da Panelada” em Parauapebas – Uma mulher de muita garra, coragem e fé

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Irani Ferreira dos Santos, também conhecida como “Tia da Panelada” ou “Fiota”, nasceu em 4 de novembro de 1963 (57 anos) na zona rural de Minaçu, que fica a 500km de Goiânia, a bela capital do Goiás. Os pais, José Ferreira dos Santos e Olinda Alves Ferreira, trabalhavam na roça e enfrentavam sol e chuva na labuta do dia a dia no campo para criar os onzes filhos, sendo cinco mulheres e quatro homens. Dois faleceram, mas nove continuam firmes e fortes no Pará, Mato Grosso e Goiás.

A vida nunca foi fácil para a menina Irani lá no povoado Mata do Café, no município de Minaçu. Desde garota, pegou no pesado. Trabalhou muito na roça, capinou mato, colheu e carregou arroz para bater no terreiro de casa e depois pilou arroz no pilão de madeira, plantou café, quebrou milho e plantou e colheu mandioca, entre outras tarefas de quem mora na zona rural.


Trabalhava muito e não tinha tempo para estudar. Não sabe ler e nem escrever, mas é uma mulher empoderada. “Nunca aprendi a ler, mas sei fazer conta muito bem e o pouco que aprendi foi na escola da vida”, disse ela, na entrevista concedida por volta das 15h de segunda-feira (16), no restaurante onde vende a mais famosa e saborosa panelada de Parauapebas (PA), bem em frente à rodoviária da cidade. A entrevista teve que ser interrompida várias vezes para ela poder atender clientes ou passar um troco ou dar uma orientação para as duas funcionárias. “Apesar daquela luta de menina da roça, eu era feliz e era muito bom quando a gente ia tomar banho no Rio Canabrava, pescava muito e ficava mais alegre ainda quando pegava um peixe. Era bom demais”, recorda, com emoção, a guerreira goiana.

De Minaçu, os pais dela resolveram ir morar em Xinguara (PA). Ela veio de Goiás, separada, e com dois filhos pequenos. O Walter, que hoje tem 38 anos, mora no interior de São Paulo e trabalha como ajudante de caminhoneiro, e o Izaquel, que morreu há mais de 15 anos aos 17 anos na zona rural de Xinguara quando cortava árvores numa roça para tirar madeira. “O pau caiu bem na cabeça dele e ele morreu na hora”, comentou Dona Irani, ressaltando que esse foi o dia mais triste da vida dela.

Posteriormente, teve outro relacionamento e vieram duas filhas: a Maria e Mirian.
Para sobreviver em Xinguara, ela vendia pastel e sucos numa carrocinha pelas ruas da cidade, considerada a “Capital do Boi Gordo”. Depois de um bom tempo em Xinguara, e separada pela segunda vez, resolveu ir morar em Marabá, também no Pará. Os pais dela continuaram morando em Xinguara. Há oito anos, aos 80 anos, Seu José Ferreira morreu. Com a morte do marido, a dona Olinda Alves, resolveu voltar para Minaçu, onde moram duas filhas, e lá morreu há cinco anos aos 70 anos de idade.

Em Marabá, a vida da destemida Irani não foi fácil. Vendeu espetinho para sobreviver, com o apoio das duas filhas. Ficou por lá uns seis anos.

Chegada à Parauapebas e a noite debaixo da mangueira

Em janeiro de 2008, Dona Fiota resolveu morar em Parauapebas (PA), conhecida como a “Capital do Minério”. Ela não lembro o dia certo que chegou à cidade, mas se recorda que foi no começo do mês de janeiro e por volta das 19h. Ao descer do ônibus, sem saber para a onde ia e sem conhecer a cidade, passou a primeira noite debaixo de uma mangueira que fica no meio do canteiro entre a rodoviária e à Avenida Presidente Kenedy, no bairro Beira Rio.
“Eu, duas filhas (Maria e Mirian), dois netos (Beatriz, hoje com 12 anos e Gabriel, com 10 anos, filhos da Mirian), passamos a noite lá debaixo daquela mangueira ali (e aponta para a mangueira que ainda está no meio da rua) ao lado das sacolas que trouxemos de Marabá. Cheguei com R$ 1 mil no bolso, que era para pagar o primeiro aluguel de uma casa, se alimentar e comprar os ingredientes para vender panelada e pagar o frete de Marabá a Parauapebas da mudança que ficou por lá: o carrinho de madeira para vender panelada e outras coisinhas da família”, relatou, emocionada.

Quando amanheceu o dia, as crianças pediram “uma merenda” e ela foi bem objetiva e direta:
– Não posso dá merenda para vocês agora, porque senão a gente não almoça. Vamos esperar mais um pouco porque aí vocês já fazem uma refeição, valendo pelo almoço, para segurar o dia todo, disse dona Irani para os netos, com o coração partido.

Segundo ela, por volta de 9h da manhã daquele segundo dia em Parauapebas, comprou uma panelada do “Seu Mineiro”, perto da rodoviária, e alimentou as filhas e os netos, e mesmo sem se alimentar, disse para eles:

“- Fiquem aqui que vou procurar uma casa para a gente morar.
Andou bastante pela pelas as adjacências da rodoviária, no Bairro Beira Rio, e até que, quando já estava desistindo, viu a última casa da Rua Rio Dourado (Rua da Secretaria de Obras), já quase na beira do Sebosinho.

– Chegando lá vi um homem na porta de uma casa e perguntei se ele sabia a onde tinha uma casa para alugar. Ele disse que a casa ao lado da dele estava para alugar. Esperei o dono da casa chegar, fechei o negócio e fui buscar as filhas e os netos lá na mangueira em frente à rodoviária. A casa não tinha banheiro. Peguei papelão e plástico preto e umas madeiras e improvisei um banheiro. Moramos por lá seis meses e depois fomos morar em uma casa melhor na rua Rio Verde, aquela rua da subestação da Celpa, onde ficamos por cinco anos”, relatou dona Fiota, em detalhes para o repórter.

Paralelamente à venda de panelada em um carrinho em frente à rodoviária, dona Fiota lavou roupa em um tanquinho que ela mesmo levava no carrinho de madeira. Não podia lavar em casa, mas lavava na porta das residências das famílias. “Passei muita necessidade, lavei roupa, fiz limpeza em casa, mas não desisti e venci”, afirmou.

Como não tinha dinheiro para comprar carvão à vontade e nem fogão à gás, dona Fiota fazia a panelada e o chambari (ou chambaril) em casa num fogão à lenha. “O carvão era só para manter a comida quente num fogareiro”, disse ela, acrescentando que tinha um rapaz na rodoviária, que de tanto ver a luta dela buscando pedaço de madeira pelas construções do bairro, resolveu ajudá-la várias vezes e levar as madeiras em seu carro até a casa dela.

A panela de pressão explodiu

Um certo dia, quando preparava a panelada em casa, “a panela de pressão explodiu e a força da pressão foi tão grande que jogou toda a panelada para bem longe e perdi tudo”, revelou, acrescentando que ficou desesperada sem saber o que ia fazer para ganhar o dinheirinho do dia. Como para tudo Deus dá um jeito, dona Fiota teve uma ideia. Correu no açougue do bairro, contou sua história para o proprietário e comprou cinco quilos de bucho, para pagar no apuro, e comprou outra panela, também fiado, e voltou para casa mais feliz e determinada a vencer a vida.

O dinheiro não sobrava e ela, as filhas e os netos passavam muita necessidade. Um grupo de amigos que ia sempre comer panelada e galinha na barraca dela no meio da rua em frente à rodoviária, notou que as crianças passavam necessidade e resolveu ajudar. Cada amigo deixava de consumir o lanche que ganhava da empresa lá no Núcleo de Carajás e trazia tudo para ela alimentar os netos.

“- Lembro que o nome do encarregado da turma era Genilson. Fico muito grata a ele e seus amigos. Nossa, nem imagino, quando eles chegavam com as sacolas cheias de caixinha de suco, biscoito, bolachas e muito lanche para meus netos. Só Deus para abençoar eles”, disse dona Fiota, mais uma vez emocionada e agradecendo muito ao grupo que sempre lhe ajudou.

Depois, quando fechou o Bar Sport TV, na esquina em frente à rodoviária, o dono do prédio resolveu construir lojinhas para alugar. Alugou todas e em uma delas montou um bar, mas não deu certo e aí resolveu alugar para dona Fiota.

A partir daquele momento, já bem mais instalada em um ponto comercial com banheiro, pia, mesas e tudo mais, a situação começou a melhorar e a venda de panelada só aumentou.

O trabalho sempre foi pesado para atender a freguesia, formada por motoristas, mototaxistas, vendedores ambulantes, prefeitos da região, vereadores, políticos de um modo geral, jornalistas, radialistas, apresentadores de TV, famílias de várias partes da cidade e muitos jovens que passam a noite em festas.

Para atender a clientela com qualidade e higiene, o trabalho começa bem cedo, 6h da manhã, na casa a onde mora de aluguel, em frente ao Ginásio Poliesportivo de Parauapebas, com as funcionárias limpando o carrinho de transportar a panelada e preparando os sucos das polpas de caju, cajá, cupu, maracujá, entre outros, e, sob sua supervisão, a filha Mirian e uma ajudante cuidando do preparo das comidas. “No começo era eu que fazia a comida, mas já tem uns cinco anos que passei a tarefa para minha filha e uma senhora que ajuda ela lá. Ainda faço o tempero e o resto é com elas. Mas supervisiono tudo. Vejo se está tudo direitinho”, explicou.

Dona Fiota chega ao restaurante em frente à rodoviária de Parauapebas antes das 14h, diariamente, e o trabalho vai até às 3 da manhã ou até quando acabar a comida. De sexta-feira para sábado e de sábado para domingo, o trabalho prossegue até às 7 da manhã. “É muita gente vindo de festa e querendo se alimentar. Tenho sempre que contratar diaristas extras nos finais de semana para poder atender a freguesia, que é fiel e gosta da nossa comida. Não sobra nada e ficamos aqui até acabar. Domingo, dia da eleição, 11 da noite acabou tudo”, afirmou.

Ela tem quatro funcionárias permanentes, além da ajuda imprescindível da filha Maria Ferreira, a mãe do Jeferson, de 18 anos, que sempre que pode também ajuda a mãe e avó na venda da panelada. “Eu fico 15 dias e ela (Maria) fica 15 dias. A gente não dorme, cochila um pouquinho, às vezes, durante a madrugada. É cansativo. Então, se não descansar uns dias em casa a gente não aguenta. Já estou velha”, comenta.

Por causa da pandemia do coronavírus, a banca da dona Fiota ficou praticamente fechada por dois meses – março e abril – e só atendia marmitex para a pessoa consumir em casa. “A pessoa vinha aqui, comprava e levava pra casa”, disse ela, acrescentando que nesse período abria às 11 da manhã e fechava Meia Noite

O repórter quis saber os detalhes das quantidades de comidas preparadas por ela e sua equipe. Dona Fiota para, pensa, olha para o alto, demora um pouquinho e revela: “Vendo por dia, em média, 200 pratos de comida. Mas dia de show ou evento grande não tenho nem noção, é muita gente comendo aqui”, faz questão de destacar, reforçando que sua preocupação sempre é com a higiene, a limpeza do ambiente e qualidade da comida. E os números são estes, segundo os cálculos dela, “em dias normais”:
15kg de arroz
40 kg de panelada
5kg de sarapatel
4kg de frango (ou galinha)
2km de chambari. “O chambari é a comida que faço menos porque está muito caro”, reclama a Rainha da Panelada.

Jornalista Lima Rodrigues e a “Tia da Panelada”

 

E qual o segredo para se fazer uma boa panelada, indaga o repórter.
“Fazer com muito carinho, amor, dedicação, atenção, capricho e com bastante tempero, porque aí fica mais gostoso”, revela.

Dona Fiota faz questão de agradecer a população de Parauapebas. “A gente passa muito sono, praticamente não dorme, só descanso um pouquinho na madrugada quando dar, aqui é superlotado, graças a Deus, por isso agradeço todas as pessoas de Parauapebas pela força que me dão e pelo carinho para comigo”, declarou.

Com muito trabalho, perseverança, garra, determinação e fé em Deus, a guerreira Irani Ferreira, a nossa querida Fiota, disse que “ganhou um dinheirinho, comprou um terreno na VS 10”, construiu uma casa para uma filha e agora está construindo a dela mesmo. A filha que ela se refere é a Mirian Evangelista Ferreira Ferraz, casada há cinco anos com o técnico em elétrica Liler Ferraz. O casal tem três filhos: Beatriz, 12 anos, Vitor Gabriel, de 10 e a Yasmim, de apenas 1 ano. (A outra filha, a Maria, tem apenas um filho, o Jeferson).

Enquanto isso, dona Fiota mora em uma casa, no Beira Rio, em frente ao Ginásio Poliesportivo de Parauapebas, não tão distante da rodoviária, com dois netos filhos da Mirian. Ao todo são cinco netos. Tem ainda o Guilherme, de 9 anos, filho do Walter, que mora em São Paulo.

O repórter pergunta se ela tem um sonho. Dona Fiota mais uma vez mostra ser uma grande mulher. Não se preocupa com riqueza e responde com simplicidade: “Meu sonho é acabar de construir minha casa na VS10 em Parauapebas, ter saúde para ajudar minhas filhas e ajudar criar meus netos, e, se for da vontade de Deus, ter uma terrinha para curtir minha velhice e viver na roça sossegada”, afirmou, deixando claro que o amor pela roça – que aprendeu ainda na infância – nunca deixou de existir em seu coração.

Ao ser pergunta sobre o dia mais triste de sua vida, dona Fiota responde com ar de tristeza. “Foi o dia em que perdi meu filho em Xinguara com 17 anos. Como disse, um pau caiu na cabeça dele quando trabalhava tirando madeira no mato”.

E o dia mais feliz?
“- Foram vários. Quando nasceram meus netos”.

O que representa Parauapebas para a senhora?
“- Representa tudo. Parauapebas é um lugar muito bom, tranquilo. Eu gosto desta cidade demais. Gosto muito do povo daqui. Foi aqui que ergui minha cabeça e venci. Só tenho é que agradecer ao povo de Parauapebas. Sou muito feliz aqui”.

Valeu a pena vir morar em Parauapebas?
“Valeu sim. Foi aqui eu venci. Valeu a pena eu ter vindo, ter passado fome, ter empurrado um tanquinho em cima de um carrinho para lavar roupa e ter sofrido alguns momentos. Valeu a pena tudo isso”.

A simpatia da dona Fiota contagia todos que vão até sua banca de panelada em frente à rodoviária de Parauapebas.
“- Venho aqui há um ano e sempre gosto de comer a panelada dona Fiota. É muito saborosa e feita no capricho. Gosto muito”, afirmou o vigia Luzemberg dos Santos Vasconcelos.
“- Há cinco anos eu frequento aqui a banca da dona Fiota. Gosto muito do frango e do sarapatel. É tudo uma delícia. A melhor comida da cidade”, afirmou Aline Rodrigues, assessora de eventos, cujas amigas que o acompanhavam, no dia da entrevista, estavam saboreando a famosa panelada da Tia da Rodoviária.

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