José Maia e Valberto Herculano, os irmãos pioneiros do cinema em Parauapebas

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp

O Cine Capri II funcionava no bairro Rio Verde, na hoje Av. Tiradentes, em frente à atual Praça do Cidadão

Valberto Herculano saiu de Santo Antônio dos Lopes, no Maranhão, ainda jovem no início da década de 1980 em busca de dias melhores no garimpo de Serra Pelada, no município de Curionópolis (PA), à época, um pequeno povoado conhecido como “30”. Ele não ficou rico no garimpo, mas conseguiu recursos suficientes para começar uma nova vida. Logo, montou um comércio atacadista (secos e molhados) e o primeiro cinema do “30”, o Cine Capri, bastante frequentado por garimpeiros de todo o Brasil que sonhavam em ficar milionários em Serra Pelada, o maior garimpo a céu aberto do mundo.

Com a vida organizada, Valberto decidiu trazer para Curionópolis os pais Antônio Herculano Filho e Alzira Maia Herculano (já falecidos), que depois se mudaram para Parauapebas (PA).


Com o sucesso do cinema no “30”, Valberto resolveu expandir os negócios e ficou sabendo que um empresário havia construído um cinema no centro do povoado do Rio Verde (hoje, Av. Tiradentes, em frente à Praça do Cidadão), mas não havia iniciado suas atividades. Comprou o cinema e, imediatamente, (no ano de 1984) decidiu chamar o irmão José Maia Herculano, que continuava morando em Santo Antônio dos Lopes (MA), para ajudá-lo na empreitada do divertimento da chamada Sétima Arte com o Cine Capri II. “As pessoas não tinham divertimento no povoado do Rio Verde. Então, o cinema chegou em uma boa hora e a gente fazia as pessoas felizes. Seguramos o cinema até a onde foi possível, ou seja, o final da década de 1980 e depois, com a chegada da televisão, a febre do cinema foi passando. Talvez, se tivéssemos recursos para investir mais na estrutura do negócio, até hoje poderíamos estar com o cinema funcionando, mas não foi possível”, afirmou Valberto.

Cabeludo do Cinema

Com a chegada do irmão José Maia, Valberto passou a se dedicar mais ao cinema de Curionópolis. Com os cabelos longos, Zé Maia acabou recebendo o apelido de “Cabeludo”.

As sessões do cinema aconteciam todos os dias, mas na quinta-feira era o dia mais movimentado porque eram realizadas suas sessões, que começavam sempre às 20h. No domingo à tarde também havia sessão. O público se divertia com os filmes de Bruce Lee*, o campeão de bilheteria à época; Tarzan, Os Trapalhões e todos do segmento faroeste. “E, no período da Semana Santa, o destaque era o filme Paixão de Cristo”, recorda Cabeludo.

*Bruce Lee

Lee Jun-fan, mundialmente conhecido como Bruce Lee, nasceu em São Francisco, Califórnia, nos Estados Unidos, em 27 de novembro de 1940 e morreu em 20 de julho de 1973). Foi um artista marcialatordiretor, instrutor de artes marciais e filósofo sino-americano.  Ele foi o fundador do Jeet Kune Do, uma filosofia híbrida de artes marciais derivada de diferentes disciplinas de combate que muitas vezes é creditada por pavimentar o caminho para as artes marciais mistas modernas (MMA). Lee é considerado por comentaristas, críticos, mídia e outros artistas marciais o mais influente artista marcial de todos os tempos e um ícone da cultura pop do século 20, que fez a ponte entre o Oriente e o Ocidente. Ele é creditado por ajudar a mudar a maneira como os asiáticos eram apresentados nos filmes americanos. Bruce Lee foi o responsável por levar as artes marciais para as telas do cinema na década de 1970. Sua morte prematura o tornou uma lenda do esporte. (Fonte: Wikipédia).

Cine Marrocos

Os rolos de filmes eram trazidos do Cine Marrocos, de Marabá (PA), na segunda, quinta e sexta-feira. “Eu e meu irmão Valberto fazíamos o revezamento nas viagens para Marabá – via empresa Transbrasiliana –  para buscar os filmes. A estrada era muito ruim e às vezes demorávamos um dia inteiro para chegar a Marabá”, disse Cabeludo.

Valberto Herculano inaugurou o primeiro cinema de Parauapebas

 

Para o cinema funcionar, os irmãos Herculanos compraram um motor potente para gerar energia elétrica. “A máquina do cinema era grande e movida a carvão. O ingresso custava 5 cruzeiros e o cinema estava sempre lotado”, destacou.

“Eu e meu irmão nos sentíamos felizes em fazer as pessoas felizes, especialmente a criançada e os jovens da cidade”, disse ele.

A bilheteira

A bilheteira era uma adolescente de 14 anos de idade, Marli Galvão Costa, cunhada de Cabeludo, que veio do Maranhão para morar com a irmã Marlene. “Vim de uma cidadezinha do Maranhão, era tudo novo pra mim, deixei meus lá e vim morar com minha irmã para ajudar eles no cinema. Eu amava tudo aquilo e aquelas sessões de filmes no domingo à tarde eram bom demais. Trabalhar no cinema, apesar de pouca idade, era uma diversão para mim”, declarou Marli, que hoje é técnica de enfermagem, e é casada há 30 anos com o supervisor de uma empresa de engenharia, Josimar de Souza Costa. O casal tem dois filhos: Wellington, de 29 anos, e Wanderson Galvão Costa, de 26 anos e tem três netos.

O cinema dos irmãos Herculano funcionou até 1988 e com a chegada da energia elétrica à recém emancipada cidade de Parauapebas e, consequentemente, a aquisição de aparelhos de televisão por parte da população, a atividade empresarial na área cinematográfica chegou ao fim e restou só a saudade.

Mercado

Após o fim do cinema, Cabeludo decidiu montar um mercado, o Comercial Norte Sul, no mesmo prédio, em frente à Praça do Cidadão. E por lá ficou até 2018, quando transferiu a mercearia para sua casa na Rua Tocantins, no bairro Rio Verde.

Parauapebas

“Representa tudo na minha vida. Valeu a pena ter vindo do Maranhão para Parauapebas. Aqui conquistamos nossos imóveis e criamos nossos filhos com muita felicidade”, responderam, quase que simultaneamente, Zé Maia e Marlene Galvão.

José Maia e Marlene Galvão estão casados há 41 anos

 

A história

O casal Antônio Herculano e Alzira Maria Herculano teve 17 filhos. Ambos morreram há mais de 20 anos em Curionópolis. A maioria dos filhos já morreu e hoje nove irmãos moram no Maranhão e no Pará: João, mora em Santa Luzia (MA); Antônio e Francisca em Curionópolis (PA); Valberto, Zé Maia, Eliene, Jaílson e Deílson, em Parauapebas(PA), e Ornézia, em Dom Eliseu (PA).

Cabeludo, a esposa Marlene, a mãe Alzira Maria, o irmão Valberto, os outros irmãos, filhos e outros parentes no dia em que o pai Antônio Herculano morreu em Curionópolis

 

Infância na roça

O nosso homenageado, o Cabeludo, assim como os irmãos, foi criado na roça e teve uma infância tranquila na zona rural, brincando de jogar bola, peão, bola de gude (peteca, como se chamava no Maranhão) e tomando banho nos açudes da região. Com 15 anos ele passou a ajudar o pai na roça, mas não estudou na sua cidade. “Só vim estudar até 8ª série já quando morava em Parauapebas”, revelou.

Cabeludo, ainda jovem em Parauapebas, em um dia de folga do trabalho no Cine Capri

 

Casamento

Cabeludo conheceu a esposa Marlene Galvão Herculano ainda muito jovem lá mesmo em Santo Antônio dos Lopes, no Maranhão. Quando se casaram em 19 de dezembro de 1980, ele tinha 22 anos e ela 17 anos. O casal tem 4 filhos: duas mulheres, Marleide e Vanessa, e dois homens: Vladimir e Vagno. Com três filhos pequenos, o casal veio para o Pará e chegou a Parauapebas dia 22 de dezembro de 1984. Aqui, nasceu a filha caçula, Vanessa, hoje Promotora Pública de Justiça na cidade.

Vanessa Galvão, filha dos pioneiros José Maia e Marlene Galvão, atualmente é Promotora Pública de Justiça em Parauapebas

 

O casal trabalhava muito e quase não se divertia porque no início da década de 1980, com exceção do Clube do Morro, não havia muito divertimento no povoado de Parauapebas e Cabeludo também tinha medo de sair a noite de casa ou após as sessões do cinema. “Zé Maia, se você pretende viver por muito tempo, não saia de casa à noite”, alertou um amigo de Cabeludo. Ele cumpriu à risca a dica do amigo.

Momento marcante

“Os momentos mais marcantes na minha vida foram quando minha filha Marleide se formou em Gestão Pública e em Letras (e trabalha há 17 anos na Vale); quando minha filha Vanessa tomou posse, após passar em concurso público, como Promotora Pública de Justiça, em Parauapebas, e meu filho Vagno se formou em direito em Teresina”.

Emancipação

Zé Maia disse que não participou ativamente do Movimento pela emancipação política e administrativa de Parauapebas, mas fez campanha, apoiou e votou no plebiscito.

Futuro da cidade

“Parauapebas é uma cidade maravilhosa e está sempre em crescimento e com certeza crescerá muito e pode melhorar mais ainda”.

Vanessa Galvão

“A insegurança da iniciativa privada me fez buscar a estabilidade do serviço público. Do meu pai, eu levo o caráter e o compromisso com o trabalho”, declarou a Promotora Pública de Justiça, Vanessa Galvão, filha de José Maia, o grande Cabeludo do Cinema.

Vagno Herculano

Quando a família veio do Maranhão, o filho do Zé Maia e da dona Marlene, Vagno Galvão Herculano chegou a Parauapebas em 1984 com apenas um mês de nascido, portanto, é também um pioneiro da cidade.

Dona Marlene e o filho Vagno, em Teresina, no dia da formatura dele em direito

 

“Parauapebas representa tudo na minha vida. Amo esta cidade. E só me ausentei quando tive que estudar direito em Teresina. Sobre meu pai, é um homem de personalidade muito forte, não foi fácil. Só ele e quem está com ele sabe o que passamos. Sou muito grato a ele pela a oportunidade de ter um curso superior. Até hoje as coisas não são fáceis, mas lutamos no dia a dia por dias melhores. Ele é mais que um pai, é um exemplo a ser seguido”, afirmou o Dr. Vagno Herculano, que atualmente estuda para ser delegado de Polícia Civil no Pará.

O Dr. Vagno Herculano estuda para fazer concurso para delegado de polícia civil no Pará

 

Por terem chegado a Parauapebas no começo da década de 1980, terem trazido alegria e divertimento para a cidade via Cine Capri, por amarem esta cidade e por terem criados os filhos aqui e até hoje contribuírem para o desenvolvimento e o fortalecimento de Parauapebas, os irmãos José Maia e Valberto Herculano são os nossos homenageados de hoje no projeto “Entrevistas com Pioneiros”.

veja também