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Mineração em Parauapebas: Muito dinheiro até hoje, pouco investimento no presente e crise no futuro

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O besteirol do minério quase eterno ou semideus ganhou fôlego e atingiu seu auge durante as décadas de 1990 e 2000, quando políticos passaram a divulgar, inadvertidamente, que as jazidas de Carajás (especificamente, as da Serra Norte, em Parauapebas) tinham 400 anos de vida-útil. Isso plantou na mente de considerável parte da população de um jeito que não sai.

Com o boom da mineração nas mesmas décadas, e diante do aumento do número de postos de trabalho, Parauapebas se tornou destino de brasileiros de todas as partes do país à procura de oportunidades. A população praticamente quadruplicou entre 1991 e 2010, mas a infraestrutura da sede municipal não deu conta de acompanhar o recebimento de novos habitantes, seus problemas e dilemas.


A cidade enfrenta hoje um caos urbano característico de metrópole com 1 milhão de habitantes, mesmo tendo população cinco vezes menor. A primeira impressão de um visitante, ao entrar em Parauapebas, é de que a cidade é uma bagunça só. Quando se está dentro, sobretudo nos horários de pico, ao meio-dia e às 18 horas, tem-se a certeza disso. A cidade cresceu, o tráfego tornou-se um monstrengo bestial megalomaníaco, porém a largura das vias urbanas é a mesma do tempo em que Parauapebas era uma corrutela perdida no mapa.

Por outro lado, dinheiro no município não é o problema, mas também não é a solução. Nos 365 dias de 2013, a prefeitura local terá recebido R$ 440 milhões pagos em compensação financeira pela Vale pela retirada do minério. O município de Parauapebas terá arrecadado sozinho cerca de R$ 700 milhões, nesse período, e mais da metade desse valor terá ido para a conta da prefeitura, a título de cota-parte. Não obstante, metade dessa cota decorre do pagamento de uma dívida que a mineradora tinha com o município e cuja causa perdeu na Justiça.

É muito dinheiro, mas um valor pífio diante do movimento financeiro que a mineração faz circular. Só este ano, serão R$ 28 bilhões em minério de ferro e R$ 500 milhões em manganês que a Vale terá vendido ao mundo das terras de Parauapebas. Esse montante desacompanha o desenvolvimento social e os índices de qualidade de vida, visto que os números que os retratam, embora estejam no topo do Pará, estão cinco anos defasados em relação ao “Brasil desenvolvido”, aquele do Centro-Sul.

SEM MATRIZ ECONÔMICA
Qual seria a matriz econômica de Parauapebas se o minério acabasse hoje? Embora o município esteja se tornando um “coroa”, dadas as três décadas de extração ativa, não há resposta para essa pergunta. A mais surreal seria o “mercado” das quitinetes e dos apartamentos, tipos de moradia arranjados na modalidade aluguel que, juntos, explodiram 7.287% entre 2000 e 2010, saltando de 79 unidades para 5.836, nada proporcionalmente visto no país.

Mas quem tem quitinetes hoje e vangloria-se de praticar preços absurdos, mesmo diante de uma crise imobiliária já anunciada e que parece não cessar tão cedo, pode se preparar para o pior. Com a abertura das “fronteiras” de loteamentos e a força popular do grito que faz centenas de famílias marcharem e fabricarem novas ocupações todos os dias, a farra dos aluguéis terá duração tão curta, daqui para frente, quanto o minério. E, aliás, a farra acaba à medida que o minério se exaure porque, com a desmobilização dos serviços minerários em Serra Norte, muitos trabalhadores que alugaram um cantinho para se estabelecer vão pegar o beco e caçar meio de vida noutras plagas.

Na realidade, Parauapebas poderia ter vocação para sua sede urbana tornar-se cidade turística, aproveitando-se as potencialidades naturais com que Deus agraciou o município, ou universitária. Mas os incentivos para isso são outros 500: não tem.
A sensação térmica é de que os governantes que passaram pela administração municipal jamais tiveram compromisso algum com o lugar, tampouco demonstraram idealismo para si mesmo e para os seus, como cidadãos locais. Metade dos ex-prefeitos, aliás, nem vive hoje em Parauapebas, o que só evidencia o grau de “compromisso” deles com o futuro da mineração no município ou, mineração à parte, com Parauapebas mesmo.

Mas indiferente ao sentimento de apego ao lugar, o estudo encomendado pela Vale deixa claro, na página 84, o que pode vir a ocorrer com Parauapebas, a partir de 2027, quando o minério levado pelo trem virar apenas lembrança de um passado bom e não aproveitado: “O impacto na receita anual de Parauapebas poderá ser da ordem de R$ 300 milhões anuais a menos em sua arrecadação, afetando de forma importante as contas públicas. Além disso, somente a massa salarial mensal vinculada ao Projeto Ferro Carajás, que hoje é da ordem de 8,1 milhões de reais, seria muito reduzida a partir de demissões decorrentes da significativa redução da produção até se completar o fechamento”.

É certo que Parauapebas tem cobre, e o projeto Alemão continua sendo programado nos bastidores, mas tudo com cautela. O cobre é pouco e apresenta vida-útil tão curta que nem terá muita graça explorá-lo. A Vale não quer atropelar suas prioridades, que são o ferro do S11D, em Canaã, e o cobre do Salobo, em Marabá.
Por fim, depois do aviso e do alerta colocados nos “finalmente” do estudo da mineradora sobre o município que mais produz minério de ferro do globo, com teor de pureza sem igual, nem é preciso dizer muita coisa. Só lamento.

Reportagem especial: André Santos

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