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Hóspede mais folgado da região, caracol pode transmitir doença mortal

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Ele chega lerdão, como quem nada quer, mas mesmo devagar e sempre consegue se instalar em sua casa. Muito folgado, gosta de sombra e água fresca, e a Amazônia, com seu clima quente e úmido, é o paraíso ideal. Age como uma fábrica estrangeira naturalizada no Brasil, desde a década de 1980, e que possui filiais em, pelo menos, 23 estados. E não adianta você colocar uma vassoura detrás da porta porque essa visita indesejada passa batido e “vara” casa adentro, chegando à cozinha para ajudar a temperar a comida com sua baba esbranquiçada.

Quem é o hóspede? É o songamonga do caracol-africano, um bichinho gosmento, mas com o qual Marabá e Parauapebas convivem diariamente, sobretudo no inverno. O nome científico da praga é “Achatina fulica”, ainda assim muitos o têm como “bichinho de estimação”, dando-lhe refeição, abrigo e, não raro, carinho.


Muita gente de coração mole se ilude com a aparência vagarosa desse molusco e até se diverte com ele, ao vê-lo se arrastar por aí. Contudo, é preciso muito cuidado. O caracol-africano é uma tradução viva de um Brasil cuja deficiência de saneamento básico se arrasta há décadas nas áreas urbanas.

Esse invertebrado — também batizado popular e equivocadamente como “caramujo” ou “lesma” — é uma espécie exótica na fauna brasileira, isto é, ele foi introduzido aqui. Trazido da África há cerca de 40 anos, a intenção era de que o bicho nó cego substituísse o escargot como comida de “barão”. Porém, o fracasso da tentativa de comercialização levou os criadores, por mera desinformação ou irresponsabilidade, a soltar o caracol-africano a ermo. Pronto: o molusco se tornou uma praga.

Hoje, em cidades do interior da Amazônia à beira de grandes rios, como Marabá e Parauapebas, o molusco é símbolo de um problema tão severo quanto o desequilíbrio ecológico que ele causa ao competir com espécies nativas da fauna silvestre.

Nas cidades de Marabá e Parauapebas, onde a sujeira é protegida por precários ou inexistentes sistemas de esgotamento sanitário, o caracol encontra seu santuário, em contato direto com 400 mil habitantes.

ASAS AO CARACOL

A omissão secular das prefeituras e seus nobilíssimos gestores em cuidar dos serviços sociais básicos é o primeiro tônico de que se aproveita o animal. Embora não possa voar, e nem precise, o molusco se projeta como um foguete na sujeira e na imundície humanas. Se os dejetos estiverem à sombra e em áreas de esgoto a céu aberto, eis que lá estará o onipresente invertebrado.

Quando ele surge em alguma residência, deixa logo seu rastro, que é caracterizado por uma gosma capaz de disseminar doenças, algumas delas fatais. Embora alguns pesquisadores demonstrem que o potencial de transmissão de moléstias graves por essa espécie seja pequeno, não é bom pagar para ver, mesmo porque há inúmeros registros de internações em razão do contato com o bicho.

O caracol pode carregar em seu corpo — e, por isso, é considerado hospedeiro intermediário — um verme parasita (“Angiostrongylus cantonensis”) que, quando alojado no sistema nervoso da pessoa, causa uma variedade de meningite (eosinofílica) mortal. O nome dessa doença que o bicho abriga e transporta debaixo da concha tem pronúncia difícil: angiostrongilíase meningoencefálica. Ainda assim, é o bastante saber que ela pode causar cegueira, além de deixar sintomas neurológicos (dormência, formigamento, queimação na pele) que se arrastam por meses.
Além da meningite, o marcha lenta pode transmitir doença de outro parasita (“Angiostrongylus costaricensis”) que atinge o trato gastrointestinal. Isso porque, como as larvas do verme carregado pelo caracol são encontradas no muco (aquela gosma branca deixada por ele como rastro), e o molusco perambula facilmente entre verduras, legumes e frutas que são sua fonte alimentar, é provável que o consumo humano desses vegetais seja a maneira mais comum de aquisição do parasita.

CARACOL OU GESTORES?

Deficiência na distribuição de água encanada, falta de esgotamento sanitário e não regularidade na coleta de lixo são os principais aliados do caracol-africano em duas das maiores cidades paraenses. É até injusto processar o molusco sozinho e não arrolar os gestores públicos, a quem compete as canetadas da vida para promover saúde ou propagar doenças e morte, diante da ausência de políticas sanitárias eficientes e que tirem do estado de vulnerabilidade a população de uma das regiões mais ricas do Brasil.

Em Marabá, algumas localidades estão mais expostas ao molusco que outras. Na Nova Marabá, as folhas 5, 6, 7, 8, 9 e 10 são aquelas que apresentam maior trânsito de caracóis, por se localizarem mais próximas ao Rio Tocantins. Nos bairros Santa Rosa e Santa Rita (complexo Marabá Pioneira) e São Félix 1 e São Félix 2 (complexo São Félix), também é comum ver o molusco andando tranquilamente nas varandas durante o dia e se ocultando nos quintas ou dentro de casa à noite. São 75 mil pessoas diretamente “influenciadas” pelo invertebrado, como o jovem estudante Romário Ribeiro, 16 anos. “Eu brinco com eles [caracóis] e até boto para andar no meu braço. Sinto uma ‘gasturazinha’, mas nunca passei mal”, confessa ele, de maneira inocente, sem se ater a um velho ditado da vovó, segundo o qual “o costume do cachimbo é o que entorta a boca”.

Já em Parauapebas, cerca de 30 mil habitantes dividem cama, mesa e banho, todos os dias, com o molusco. São bairros como o Liberdade 1 e o Primavera, e pessoas como a dona de casa Sandra Dantas, que acaba de ser expulsa do lar pela cheia do Rio Parauapebas. “Esta semana eu tirei uns 50 ‘insetos’ aqui de casa”, conta ela, que mora numa casa de madeira erguida há mais de uma década e que espera uma prometida orla “passar” por sua casa para que seja indenizada e se mude para um lugar melhor. “Não tenho medo deles [caracóis], não. Só tenho um pouco de nojo da gosma porque eles andam em tudo quando é lugar: no fogão, na fruteira, na cama das meninas”, descreve Sandra, que tem duas filhas, de 16 e 4 anos. “Minha pequena brinca com o ‘bichinho’, e eu só digo a ela para não colocar na boca. É natural”, ri.

Embora pessoas como Romário e Sandra não se toquem do risco que é ter por perto esse bicho que pode chegar a 200 gramas (peso de um pote de margarina), já que ele não morde, não ferra e nem solta veneno, é preciso que cada um tome juízo e ciência de que o caracol-africano pode transmitir doenças graves. Um invertebrado desse pode viver até meia década e fazer 10.000 herdeiros em vida. Cada novo caracolzinho começa a fornicar aos quatro meses, e aí é uma fornicação doida, para o resto da vida.

Enquanto tudo isso acontece, a população leiga se diverte com um molusco que carrega perigo em potencial, sem se dar conta da gravidade do ato. E, no final, todos pagam a fatura da inconsciência, lotando os ambulatórios de moribundos, à medida que o molusco se prolifera livremente e — ele, sim — brinca na sujeira nossa de cada dia, espalhada nas cidades que insistem em se comportar com hábitos de 1900, no tocante a saneamento básico. Tratado tão bem, o caracol-africano agradece a visita, de coração.

Reportagem: André Santos – Colaborador do Portal Pebinha de Açúcar

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