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Parauapebas está no topo das estatísticas de acidentes com motos no Pará

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O Pará se mobiliza para tentar conter, de forma mais ordenada e sistemática, um problema que se tornou um dos maiores desafios à saúde pública em todo o Brasil. Trata-se de um mal que vem consumindo cada vez mais recursos públicos dirigidos ao setor – e que pressiona a rede de serviços de urgência e o atendimento à população, em especial na oferta de leitos. A violência no trânsito já é responsável por cerca de 10% dos gastos ligados aos recursos anuais destinados à saúde no Estado. Além disso, quase a metade dos leitos de instalações como as do Hospital Metropolitano, de Ananindeua, já está comprometida cotidianamente com essa demanda.

“O impacto é grande para todo o país. Dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) mostram que cada uma das mortes no trânsito do Brasil custa R$ 648 mil aos cofres do Brasil”, alerta o médico Hélio Franco, ex-secretário estadual de saúde e membro do colegiado gestor da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa). Só na saúde pública paraense, R$ 250 milhões foram gastos do Tesouro Estadual, apenas em 2015, para o tratamento de pessoas com traumas decorrentes de acidentes de trânsito em todo o Estado. “Com esse valor seria possível construir um Hospital Metropolitano a cada ano”, pondera Franco. “Dos R$ 2 bilhões de recursos que o Estado destinou para a saúde em 2015, mais de 10% foram gastos com traumas motivados pelo trânsito”.


O médico reforça: os impactos da violência do trânsito vão além dos gastos da saúde destinados aos atendimentos em emergência. “Há ainda os custos permanentes disso para a sociedade, ligados à necessidade de reabilitação e a tratamentos que podem seguir pelo resto da vida”, lembra Hélio Franco.

Somente no primeiro semestre deste ano, estima-se que o Pará tenha perdido R$ 1,64 bilhão em decorrência de acidentes nas ruas e estradas do Estado. A conta se refere aos impactos econômicos causados pelas mortes de 826 pessoas ao volante e aos 744 casos de invalidez permanente decorrentes de acidentes no trânsito ocorridos entre janeiro e junho, estima estudo do Centro de Pesquisa e Economia do Seguro (Cpes), da Escola Nacional de Seguros.

O cálculo foi feito com base em dados do Seguro de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre (Dpvat). Como a maioria das vítimas está em idade ativa – na faixa etária de 18 a 64 anos –, o estudo estima que esse prejuízo econômico é igual ao valor que deixa de ser produzido pelo afastamento desses trabalhadores do mercado de trabalho. Se mantida a frequência de acidentes e o número de vítimas neste segundo semestre de 2016, o prejuízo poderá superar o valor destinado à toda a receita de Belém no ano passado: cerca de R$ 2,7 bilhões.

Mobilização – Em 2014, 169 mil acidentes foram registrados apenas nas rodovias federais de todo o país. Além de 26 mil feridos graves, eles resultaram em 8.227 mortes nas estradas – cerca de 23 por dia. Para o Brasil, o custo dessa “guerra” nas estradas foi de R$ 12,3 bilhões. Somando as vias estaduais e municipais, o prejuízo acumulado foi de R$ 24,8 bilhões. O Brasil é o quinto país que mais mata pessoas no trânsito.

Somente em 2015, foram registradas 43 mil mortes no trânsito no país – ou cerca de 118 pessoas mortas a cada dia. “É como se um jumbo caísse todos os dias no Brasil. É preciso que todos saibam disso para começar a mudar comportamentos, com posturas como deixar de parar na fila dupla. Isso tem que começar pela educação e pelas famílias”, pondera Hélio Franco.

No último dia 10, o assunto foi um dos temas de reunião coordenada pela Secretaria Extraordinária de Estado de Integração de Políticas Sociais (Seips) e pela Secretaria Adjunta de Gestão Operacional, da Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social (Segup), com vários órgãos estaduais. “A ideia é apresentar em breve uma grande ação intersetorial, articulando várias frentes do governo estadual, para que possamos reduzir a violência no trânsito”, adiantou o diretor técnico operacional do Departamento de Trânsito do Estado (Detran), Walter Aragão.

Muito além de uma campanha, as reuniões querem traçar um plano de ação de governo que possa reverter o avanço dos acidentes no Estado, com focos em educação, fiscalização e engenharia de trânsito. A estratégia poderá ser apresentada durante a Semana Nacional de Trânsito, em setembro. Um dos termômetros desse cenário de esforços é a recente inclusão da Sespa entre os representantes com direito a uma cadeira no Conselho Estadual de Trânsito.

“Há 20 anos a gente nem se metia nesse assunto, mas hoje os acidentes de trânsito são um dos maiores problemas de saúde pública do país”, justifica o médico Hélio Franco. “O Estado está reunindo para poder buscar soluções, mas essa é uma responsabilidade ética de cada cidadão, e não apenas do poder público, da saúde ou do Detran. Os números da violência no trânsito vêm de situações evitáveis em 90% dos casos. A maioria dos acidentes decorre da imprudência, negligência, imperícia e do uso de drogas”.

Elo mais frágil – Segundo atestam a Sespa e os próprios números do Detran, um dos nós mais sensíveis desse quadro é a expansão do mercado de motocicletas em todo o Brasil. Só no ano passado, o Pará registrou 627 mortes por causa de acidentes com motos, a média de quase dois óbitos por dia. “Com isso, já estamos ultrapassando números de várias doenças infectocontagiosas. A maioria das vítimas é de jovens, que ocupam leitos que deveriam estar à disposição de idosos”, exemplifica o médico.

“Além da Região Metropolitana de Belém, que soma 60% da frota do Pará, as regiões sul e sudeste do Estado estão entre as que mais nos preocupam, pelo número de acidentes e pelo volume de frota circulante de outros Estados”, avalia Walter Aragão, do Detran. “O comportamento dos motoristas, em especial sobre motocicletas, o excesso de velocidade e a direção sob efeito de álcool são grandes problemas. Além disso, é preciso que as prefeituras efetivamente criem departamentos municipais de trânsito. Desde que o Código Brasileiro de Trânsito estabeleceu isso, em 1997, pouco se avançou. No Pará, apenas 25 dos 144 municípios efetivamente cuidam hoje do setor localmente”.

No Pará, 60% dos acidentes de trânsito envolvem motocicletas, e eles são sempre os mais graves, justamente porque as vítimas estão muito mais expostas. Quase sempre elas chegam às emergências com quadros de politraumatismos. “Por isso montamos um hospital de retaguarda na Grande Belém, que é o Hospital Galileu”, ressalta o médico Hélio Franco, pontuando que Itaituba, Parauapebas, Altamira e a Região Metropolitana de Belém lideram as estatísticas de acidentes com motos no Pará.

“Hoje cerca de 40% dos leitos ocupados no Hospital Metropolitano são ligados a vítimas de trânsito. E 45% dos casos atendidos hoje pelo Hospital Metropolitano são de acidentes com motociclistas. As cirurgias e atendimentos crescem nas férias e nos fins de semana. As cidades que beiram as rodovias paraenses são as que mais nos encaminham vítimas. Os homens, na faixa entre 18 e 36 anos, lideram as estatísticas”, resume o gerente de enfermagem do Hospital Metropolitano, Diego Pes.

O enfermeiro ressalta o grande impacto dos acidentes nas ruas e estradas para a média de ocupação de leitos do hospital. Os atendimentos exigem a média de permanência de nove dias nos leitos. Os acidentes de trânsito também representam cerca de 650 cirurgias mensais ligadas a esses problemas. Além dessas, ainda há as cirurgias que acabam sendo necessárias para dar sequência ao atendimento. Em média, são 16 intervenções cirúrgicas mensais, de recuperação de perda e alongamento ósseo, feitas apenas pelo Hospital Galileu.

Vidas nas pistas – O gerente de enfermagem do Metropolitano garante: a capacidade de atendimento atual do hospital seria visivelmente favorecida se os números de acidentes recuassem. “O Metropolitano existe para isso, para atendimento de emergência em politraumatismos e para queimados, mas se o trânsito fosse melhor, poderíamos fazer atendimento em outras especialidades, como na reparação plástica, ou avançar em neurocirurgias, cirurgias da coluna ou em pediatria”.

“Peço que os motoristas tenham mais atenção. Nosso trânsito está péssimo”, lamenta a técnica de enfermagem Andreia Costa de Carvalho, 42 anos. No último dia 29 de junho, ela foi atropelada por um ônibus que fez um retorno errado. Foi atingida quando voltava para casa, em Ananindeua. O acidente mudou a vida dela. Já foram três cirurgias, enxertos e amputações. Ela ainda se prepara para o período pós-cirúrgico e de reabilitação. Entre seis meses e um ano, não poderá colocar os pés no chão. Além disso, nunca mais trabalhará em contato com pacientes. Deverá voltar a atuar, mas dedicada apenas à parte administrativa. “O pior de tudo isso, a minha pior sequela, é não poder trabalhar. No dia seguinte ao acidente eu ia começar na Santa Casa”, conta Andreia, que é casada e mãe de três filhos.

“É um alto custo social. São tratamentos que exigem de um a seis anos. E há casos de pessoas que ainda nem terminaram de resolver a primeira cirurgia e já voltam para um novo atendimento, pois sofreram novo acidente”, pondera o gerente de enfermagem do Hospital Metropolitano, Diego Pes, informando que o hospital tenta responder a esse desafio criando oportunidades para maior conscientização. “Ações vêm sendo feitas em colégios. Queremos formar pessoas que possam atuar com as crianças, para mudanças daqui a 25 anos”.

Na opinião do diretor técnico operacional do Detran, Walter Aragão, não bastam apenas esforços integrados de governo ou campanhas. Para ele, o problema não se resolverá sem um trabalho forte em educação e fiscalização, além de mudança de comportamento da população. “Já se avalia se campanhas feitas hoje têm surtido efeito, se são necessárias outras linguagens. A frota paraense cresce 10% ao ano. Precisamos achar caminhos para um desafio que não é só do Pará, do Brasil. É um problema global”.

Reportagem: Lázaro Magalhães

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