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Parauapebas não ganha o suficiente pelo minério extraído do município

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Parauapebas bate a cidade de São Paulo, coração financeiro nacional, em US$ 57.930.277,23 nas exportações, e enquanto regozija por dinheiro de sobra na balança, a capital paulista amarga déficit de US$ 1.617.906.534,22. Se serve de consolo, entre todos os 2.224 municípios exportadores, São Paulo é – apesar do saldo negativo na balança justificado por ser o maior importador nacional – o primeiro colocado em transações comerciais. Parauapebas é o oitavo.


Por aqui, os valores são gigantes para um município de apenas 172.689 habitantes e 49.788 empregos formais, de acordo com dados do Ministério do Trabalho e Emprego para abril deste ano. A propósito, são poucos que produzem esses bilhões de dólares de Parauapebas. Dos quase 50 mil trabalhadores formais do município, só 13 mil, atualmente, extraem os minérios de ferro e manganês, as chamadas commodities que a mineradora Vale negocia lá fora.

A PORTAS FECHADAS
Avenida Graça Aranha, número 26, Centro da cidade do Rio de Janeiro. Grave bem esse endereço. Aí, num imponente edifício, a mineradora Vale mantém sua sede global e controla a vida econômica de Parauapebas, que é sua colônia de exploração e está a 2.695 quilômetros.

Tome nota deste outro: Edifício InterContinental Business Center, 50F, Zona de Yu Tong Road, Xangai, China. É lá, a 18.267 quilômetros da sede global e a 22 horas e meia de voo, onde brasileiros e chineses tomam chá, dão risadas, articulam, fazem concessões, traçam planos para Parauapebas, assinam contratos de longo prazo, apertam as mãos e fecham negócios. Não há lisura no processo. O luxuoso arranha-céu InterContinental, onde funciona o escritório da Vale na China, é responsável por despejar as maletas de dólares que partem do Oriente rumo ao Novo Mundo.

Todos os dólares metamorfizados a partir dos minérios de Parauapebas são negociados a portas fechadas. A China, desde o início da década de 2000, oferece tapete vermelho e sala com vidros de cristal à Vale para tudo fluir bem no submundo das operações com os minérios parauapebenses. Prefeito, vereadores e cidadãos do município jamais seriam convidados a acompanhar o escambo, e esse tipo de situação até arrepios causa à mineradora, para quem a presença de “estranhos” – e maiores interessados – a seus negócios seria uma atitude constrangedora.

A China tem pressa e é a mais gulosa pelo ferro de Parauapebas, que lhe apraz com 66% de hematita, o melhor teor “in natura” do planeta. Ela, sozinha, fechou com a Vale US$ 1.445.765.374,11 em negócios, entre janeiro e abril deste ano. Isso quer dizer que, de cada dois dólares que entram no Brasil oriundos das vendas dos minérios de Parauapebas, um foi pago por chineses. Nem mesmo a língua enrolada, devido ao mandarim, é suficiente para deter uma transação financeira pomposa, a qual ampliou de 47,04% em 2012 para 49,76% este ano.

Mas há muito mais gente afoita pelos minérios de Parauapebas. A fila é grande: tem japonês, tem francês, tem sul-coreano, tem alemão, tem italiano, tem holandês, tem taiwanês. Tem gente até de Omã, no Oriente Médio. Os Estados Unidos ficam praticamente no rabo da fila – 19º lugar entre 22 interessados – e este ano só valorizaram os minérios daqui com US$ 3.237.420,04 – uma mixaria para um país que, um dia, quis tudo sozinho.

NOS BASTIDORES
Na natureza, o ferro esconde-se no meio de um monte de terra e de outros minérios “sem valor” econômico (chamados estéril). Mas não é tão sem valor assim. Acontece que no complexo de Carajás, o mesmo de onde a Vale extrai os valiosos ferro e manganês, são encontrados também alumínio, cobre, níquel, zinco, cromo, titânio, fosfato, ouro, prata, platina, paládio, ródio, estanho, tungstênio, nióbio, tântalo, zircônio, terras-raras, urânio e diamante. Alguns desses bens minerais permanecem em quantidades ainda desconhecidas, já que não são o foco da mineradora e, portanto, não se faz necessário, em tese, gastar dinheiro com pesquisas de prospecção para dimensionar sua abundância e quantidade.

A própria Vale, em seu livro “Nossa História 2012”, admite haver essa mina de preciosidades quando afirma: “Em Carajás – e isso continua a ser descoberto no decorrer dos anos –, essa concentração e essa variedade de depósitos minerais se dá em níveis jamais imaginados. Coisa de quem, como definiu o primeiro-ministro chinês, ‘agradou os deuses'”.
Os principais órgãos de pesquisa mineral do país, como o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), o Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM) e o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) também já apontaram haver um verdadeiro tesouro na região enterrado pela mãe natureza.

Por outro lado, quando o ferro é vendido ao exterior, por exemplo, não raro alguns desses “sem valor” vão junto. Mas a Vale – e o próprio município de Parauapebas, que recebe Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM) – só lucra pelo minério de ferro que vende. Puro e seco. A mineradora não quer saber dos restinhos de outros minérios paraenses que saem infiltrados navios afora. Para ela, se houver no pacote, são insignificantes.
Para Parauapebas, na prática, é uma fortuna que vem sendo perdida em royalties desde 1985, quando a primeira viagem de trem cruzando os 892 quilômetros de floresta e clareira levou o minério de ferro até São Luís para embarcá-lo ao mundo.

PERDEMOS NÓS
O que, para os brasileiros, é algo insignificante, em países de tecnologia de ponta, como Japão e Alemanha, é uma mão na roda. Os restinhos de ouro, prata, zinco, alumínio, cromo, estanho, tungstênio, nióbio, urânio, entre outros, tornam-se componentes para sofisticados celulares, tablets, smartphones, notebooks, carros, aviões, equipamentos médicos e até bomba atômica.
O “lixo” brasileiro que vai embolado com o minério de ferro é reciclado lá fora e volta altamente sofisticado e custando o olho da cara. Até os chineses estão fazendo uso dessa técnica e garimpando o restinho de estéril e o inútil para fabricar seus produtos de qualidade duvidosa, mas com forte apelo no mercado internacional.
Ao município de Parauapebas, só resta assinar embaixo o atestado de que está sendo passado para trás.

Reportagem: André Santos

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