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Trabalho em mineradoras leva profissionais ao colapso mental

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A tarde vai cessando em mais um sábado quente em Catalão, interior de Goiás, a aproximadamente 300 quilômetros (km) da capital Goiânia. Atrás do campus da Universidade Federal de Goiás (UFG), mais de 100 jovens espantam o sertanejo universitário – predominante na cidade – com um rock pesado.

Com uma banda ao vivo e desafinada, o que parecia importar mesmo era o ensurdecedor barulho da bateria e da guitarra fazendo rapazes e garotas, vestidos de preto, pularem sem parar tocando uns aos outros de maneira brusca com os cotovelos.


“Caramba, quanto tempo não faço isso: me divertir”. Pingando suor pelo rosto, o jovem Miguel* senta na calçada, olha ao redor e começa a relatar o sentimento e as histórias de mortes, acidentes e assédio moral que vivenciou nos 14 anos em que trabalhou na mineradora Anglo American, em Catalão.

“[Ali] dentro as coisas são muito tristes. Eu vi três mortes na minha frente por acidente e uma por enfarto. Só eu sofri mais de quatro acidentes”, relembra o jovem que prefere não se identificar.

Com uma rotina de estresse e sem saber se sobreviveria ao dia de trabalho, Miguel ainda enfrentava uma cobrança dos supervisores. “Eu tenho depressão por conta do assédio moral. Trabalhava sendo xingado de ‘desgraçado’, ‘burro’, ‘idiota’ pelos chefes”, relatou.

O sorriso do ex-funcionário da Anglo e mesmo a calma expressada naquela tarde não eram naturais. “Tomo remédio controlado diariamente. Passei por mais de 400 terapias nos tempos de trabalho na Anglo American e ainda hoje necessito de análise. Minha situação de instabilidade emocional é crônica, se eu parar de tomar remédio volto a ter crises de pânico, raiva, ansiedade e depressão”, reclama.

Miguel também teve o metabolismo alterado pelo ritmo de trabalho na mineradora. “Eu rodava muito turno, ou seja, trabalhava alguns dias de noite e outros de dia. Por causa disso, a minha fisiologia não acompanha mais o ritmo normal da vida. Na madrugada, eu estou acordado e durante o dia eu tenho sono”, lamenta.

Bafômetro 

O índice de alcoólatras, usuários de drogas e de trabalhadores que começaram a fazer uso de remédios controlados em mineradoras tem aumentado nos últimos anos.

Pesquisa divulgada pelo Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Extração do Ferro e Metais Básicos do Ouro e Metais Preciosos e de Minerais não Metálicos (Metabase) de Carajás mostrou que 200 trabalhadores da região que trabalham dirigindo caminhões usavam remédios diariamente para dormir e contra o estresse sem conhecimento da empresa. Esses veículos, chamados de fora de estrada, geralmente, pesam 300 toneladas com dejetos e minérios.

“Você colocar um caminhão daquele tamanho na mão de um funcionário que toma remédio controlado é um risco gigante. Detalhe, a empresa não sabe, o trabalhador omite porque pode ser demitido”, diz Marta Freitas, diretora da Secretaria de Saúde de Minas Gerais.

Além dos medicamentos, o álcool tem funcionado como um meio de resignação dos mineradores. “O uso exacerbado do álcool e de drogas é uma realidade entre os trabalhadores da mineração para poderem dormir e, principalmente, aguentarem a labuta diária pesada”, denuncia Lourival Araújo Andrade, do Instituto Brasileiro de Educação, Integração e Desenvolvimento Social (Ibeids).

Um exemplo disso é a cidade de Parauapebas, no estado do Pará. Segundo pesquisas do Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre consumo nas cidades paraenses, a alimentação é o primeiro item de consumo das famílias. No município do sul do estado, por outro lado, os produtos alcoólicos despontam como despesa prioritária.

Para coibir tal situação, em Catalão, a Anglo American passou a adotar o uso de bafômetro e teste toxicológico de maneira obrigatória em todos os turnos. Os trabalhadores seriam escolhidos para os exames através de sorteios.

Rosivaldo* reclama de perseguição.“Dizem que é aleatório a escolha de quem será submetido aos testes, mas já me chamaram para fazer o teste do bafômetro quatro vezes em uma mesma semana”, relatou o empregado que também prefere não se identificar.

Para aqueles que se recusam, a demissão é questão de tempo. “Alguns não fazem, aí piora a situação, porque passam a ser taxados de bêbados e drogados, até que não aguentam mais tanta humilhação e pedem para sair”, protesta o funcionário.

Para Marta Freitas, “exames antidoping não resolvem o problema, além de ser uma prática ilegal, pois o uso de bafômetro” somente é autorizado pela lei de trânsito”, esclarece.

Procurada pela reportagem, a Anglo American disse que “tem mecanismos para evitar que situações de assédio moral aconteçam em suas dependências e caso ocorram, há canais de comunicação para que os empregados e contratados possam denunciá-las”.

A empresa também afirmou que implementou “a Política de Álcool e Drogas com o objetivo de identificar casos em que os empregados não estejam aptos a trabalhar em ambiente industrial, para assim contribuir para reduzir riscos associados à segurança dos próprios empregados. Essa política prevê testagem por amostragem e caso seja detectado consumo de álcool e drogas, o empregado é encaminhado para aconselhamento. O resultado da testagem é confidencial. [Não há casos de demissão associados ao teste]”, segundo a mineradora.

Reportagem: Márcio Zonta

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