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Em 13 anos, Parauapebas “conquistou” oito favelas e 13,6 mil favelados

O número de favelões na zona urbana de Parauapebas saltou de zero para oito entre 2000 e 2013, e atualmente a cidade concentra 13,6 mil cidadãos morando em lugares onde, sem o devido ordenamento, como rege o Plano Diretor municipal, o poder público jamais poderá atuar. Trocando em miúdos, em Parauapebas existe uma cidade inteira pouco maior que Curionópolis só de favelados. E nem adiantaria suavizar o termo porque, na técnica estatística, essa parcela da população é, infelizmente, chamada assim, justamente para abrir os olhos de prefeitos inertes e indiferentes à urbanização de seus respectivos municípios.
Beiras de rio, florestas, morros, encostas, toda a paisagem natural teve de abrir caminho a uma marcha sem fronteira de sem-teto que em algum lugar deveria se alojar para não avolumar a estatística dos que atualmente dormem na sarjeta – 273, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no município que mais rende dinheiro com transações comerciais no exterior.

No fundo, essa quantidade absurda – e que não para de crescer – de favelados expõe o fracasso da gestão dos recursos multimilionários que entram no caixa da prefeitura local e que se perdem sem que a população tenha a devida prestação de contas. Entre 1997 e 2012, o volume de royalties de mineração que entrou na conta-corrente da Prefeitura Municipal de Parauapebas seria suficiente para construir 30 mil unidades residências. Ou seja, daria para fazer o maior programa de habitação do Estado.


Na prática, porém, o que se visualiza em pleno século 21 é um município cheio de contradições internas – e as mais graves por ser o maior minerador do país – e que rema contra uma maré de azar, em 2013, agravada pela insatisfação da população em não aguentar mais ser espoliada pelo sistema que ela mesma ajudou a instaurar e a manter.

GRANA NA CONTA
Enquanto os sem-teto fazem o maior auê por causa de moradia, a conta da prefeitura, apesar da queda na arrecadação de Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM), vai caminhando, à base do caladinho, muito bem de saúde, obrigado. Ontem, dia 5 de junho, felizes R$ 20.924.527,73 entraram na conta-corrente da prefeitura no Banco do Brasil. Não é um valor de fazer vergonha, mas fevereiro e março foram bem mais rentáveis.

Esses R$ 21 milhõezinhos, tadinhos, são apenas R$ 2,6 milhões mais gordos que os R$ 18.286.947,02 com que a conta da prefeitura foi contemplada no mês passado. Ajuntando tudo – royalties, recursos da educação, da saúde, cota-parte de ICMS, de FPM, impostos, entre outras fontes –, o município recebeu na conta gorda R$ 59.564.527,76. Marabá, que é mais populoso, viu entrar só metade disso em sua pobre continha. Esses quase R$ 60 milhões do mês de maio, em Parauapebas, seriam suficientes para construir 1.500 residências a um custo unitário tolerável.

Por outro lado, os habitantes do município só tomaram cano: pagaram em impostos, do primeiro dia deste ano até hoje, R$ 332,2 milhões. É muito dinheiro para pouco serviço no quintal do Pará.
A trilha sonora de grande parte dos que não têm moradia (só para lembrar: 66 mil sem casa própria e, destes, 34 mil em moradias condenáveis) é à Zé Ramalho e bem conhecida de todos: “Cidadão” (1979). “Tá vendo aquele edifício, moço? Ajudei a levantar. Foi um tempo de aflição; eram quatro ‘condução’, duas pra ir, duas pra voltar. Hoje, depois dele pronto, olho pra cima e fico tonto. Mas me vem um cidadão e me diz, desconfiado, ‘tu tá aí admirado ou tá querendo roubar?’ (…)”.

Reportagem: André Santos

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