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Fauna de Marabá e Parauapebas é apresentada em congresso nacional

Quais animais silvestres convivem com o homem, praticamente imperceptíveis, nas áreas urbanas de Marabá e Parauapebas, as duas maiores cidades do Sudeste Paraense? Que bichos da fauna são constantemente atropelados na estrada (PA-275 e BR-155) que interliga essas duas localidades? As respostas dessas e outras questões constam de dois artigos científicos nas áreas de Zoologia e Educação Ambiental que foram selecionados entre cerca de 400 pesquisas para serem divulgados durante o 11º Congresso Nacional de Meio Ambiente (CNMA) 2014, a ser realizado em Poços de Caldas (MG), nos dias 21, 22 e 23 de maio.
Assinados pelo engenheiro de minas e meio ambiente e biólogo André Santos, os artigos retratam cenários pouco valorizados pelos habitantes urbanos dessas cidades, no que diz respeito à preservação de espécies de vertebrados. Uma pesquisa é intitulada “Atropelamento de Fauna Silvestre entre Marabá e Parauapebas: BR-155 e PA-275” e a outra, “Espécies da Fauna Urbana de Marabá e Parauapebas: Conhecer para Preservar”. Os dois textos – com tabelas e figuras – foram aprovados sem que fosse preciso modificar uma vírgula sequer.
De acordo com o biólogo, os artigos foram escritos durante uma série de observações no ano passado e visando à publicação, em primeiro momento, em seu blog na internet. Mas dada a riqueza de elementos encontrada em campo, ele resolveu submeter a dois eventos de renome para validar os dados e, assim, divulgar os resultados.
“Tive os trabalhos aprovados em dois grandes eventos científicos, mas dei preferência ao de Poços de Caldas por ser o de maior expressão e onde devem se encontrar os pesquisadores mais renomados sobre as questões que discuto”, explica Santos, informando não poder divulgar os resultados agora para preservar o ineditismo das pesquisas, o que é exigido pelo congresso.

FAUNA ATROPELADA
Espécies vulneráveis à extinção são arregaçadas na pista


De acordo com o biólogo, o levantamento da fauna de vertebrados silvestres vítimas de atropelamento entre Marabá e Parauapebas, num trecho de 167 quilômetros, é inédito na PA-275 (entre Parauapebas e Eldorado do Carajás) e BR-155 (entre Eldorado do Carajás e Marabá). A pesquisa foi realizada em cinco meses e registrou número elevado de animais mortos, com destaque para mamíferos de médio porte.
“A situação é preocupante e denota quão vulnerável está a natureza entre esses dois centros urbanos. Além do desmatamento às margens da estrada, que fez desaparecer grandes extensões de florestas, os vertebrados silvestres têm de enfrentar um fluxo de veículos que está entre os mais frenéticos do Pará”, conta André Santos, observando que não existe uma placa sequer nos corredores onde restou alguma mata para sinalizar que naquele dado local há passagem constante de fauna.
Ele mesmo conta que quase foi atropelado numa das coletas. “Entre Curionópolis e Eldorado, há muitas curvas e trechos depressivos. Num deles, parei o carro no acostamento e desci para fotografar uma raposa atropelada. Por um triz não virei finado porque vinham dois carros disputando racha, e um deles quase me colheu no momento em que eu registrava o bicho.”
Para o biólogo, o elevado número de atropelamentos de animais se dá em decorrência da falta de fiscalização nas estradas, bem como da falta de educação no trânsito. “É possível afirmar que o atropelamento de animais ocorre, na maioria das situações, à noite e por mera ignorância de condutores tresloucados, que põem a vida deles mesmos em perigo”, ressalta. “Imagine o que é atropelar um gato-do-mato, um dos mais ariscos animais e cujos hábitos são noturnos. O condutor tem de estar trafegando a mil por hora à noite para acertar um bicho desses, que possui um dos mais impecáveis movimentos reflexos e ainda consegue enxergar no escuro”, continua.
Segundo o autor, nos grandes portais nacionais de pesquisa consta indexado apenas um estudo sobre atropelamento de fauna na região, datado de 2006 e que evidencia a situação da Rodovia Raimundo Mascarenhas, que liga a cidade de Parauapebas ao Núcleo Urbano, cortando a Floresta Nacional de Carajás (Flonaca).
“Uma das conclusões do meu estudo, e que considero grave, é o fato de haver espécies vulneráveis à extinção sendo frequentemente atropeladas. As autoridades competentes precisam estar atentas a isso porque a falta de rigor ecológico percebida na região revela nosso atraso e nosso fracasso em nível de sustentabilidade ambiental numa das regiões que mais geram riquezas para o Brasil”, sintetiza.

FAUNA URBANA
Aves exibem-se em Parauapebas e répteis, em Marabá

A pesquisa dos bichos urbanos foi escolhida entre todos os trabalhos para apresentação oral a um público estimado em 2.000 pessoas e, conforme o autor, teve caráter de checar espécies indicadas em inventários realizados na região, lançando mão de algo simples: a observação. A correria do dia a dia, conforme o biólogo, faz com que passem despercebidos o saruê (ou mucura) que se esconde no alto do morro onde a alguns passos está instalado o prédio da Prefeitura de Parauapebas ou o pássaro que cantarola todo dia ao amanhecer, no quintal de casa, e até mesmo aquele sapo – chato e inconveniente, para muitos – que coaxa sem parar.
Santos observa que, enquanto a fauna urbana de Marabá é mais exibicionista, a de Parauapebas é tímida. E o motivo, segundo ele, está nas características geoambientais do entorno de cada um desses centros urbanos. Isso porque os animais silvestres de Parauapebas têm nos arredores da cidade a Flonaca onde se esconder, ao passo que em Marabá já não há mais floresta, mas os dois grandes rios que cortam a cidade – Tocantins e Itacaiúnas – desempenham papel de berçário natural ao ar livre. “Em Parauapebas, é comum avistar revoada de aves batendo em retirada rumo à floresta, já em Marabá há predominância de répteis, sobretudo lagartos e serpentes, inclusive nos quintais das casas.”
A aventura da coleta de dados também trouxe prejuízos, embora muita emoção. “Na Avenida Liberdade, em Parauapebas, próximo a uma borracharia, tem um córrego com um habitante ilustre: um jacaré. Um mecânico me fez essa fofoca, e eu saí feito louco brejo adentro para ver se via o bicho. Depois de meia hora de espera, lá estava o réptil, mas naquela agonia doida para tirar foto levei um tombo n’água e perdi câmera digital com quase todo meu acervo. Aí, nem foto, nem jacaré. Tive de refazer boa parte do trabalho. Mas só de saber que o bicho ainda está lá, fico orgulhoso.”
O biólogo informa que, em Marabá, a Casa da Cultura é referência sobre estudos de fauna da região e, em Parauapebas, o livro “Fauna da Floresta Nacional de Carajás: Estudos sobre Vertebrados Terrestres” é um dos mais incríveis já organizados sobre o tema no Brasil, além de ser uma produção local. “O que fiz foi levantar quais dos bichos referenciados pela literatura e por diferentes entidades de pesquisa habitam a área urbana de nossas cidades e em quais partes estão. A pesquisa aponta a necessidade de implantação de áreas verdades nas sedes municipais a fim de que possamos proceder à conservação dos bichos, que muitos pensam existir no ideário de uma Amazônia verde com florestas intactas. A Amazônia é aqui, pessoal”, sintetiza.

MAIS PESQUISAS
Artigo sobre imóveis vagos está pronto e vai a congresso

O biólogo e engenheiro, que também faz pesquisas na área de socioeconomia, economia mineral e desenvolvimento sustentável, teve cerca de duas dezenas de trabalhos selecionados e publicados em anais de eventos regionais, nacionais e internacionais em 2013, bem como em revista científica especializada. Recentemente, tornou-se mestre pela Universidade Federal do Pará (UFPA) com dissertação defendida sobre a socioeconomia de Parauapebas, abordando desde a migração de trabalhadores maranhenses ao município até a crise de postos de trabalho no setor mineral e o cenário perspectivo de exaustão das minas de Serra Norte.
Em breve, vai publicar artigo científico em que consta um minicenso dos imóveis com placa de “vende-se” e “aluga-se” em Parauapebas, numa apuração, segundo ele, “assustadora” para uma cidade em que, até pouco tempo atrás, era praticamente impossível encontrar imóveis vagos.

Reportagem e foto: Divulgação

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