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Parauapebas ‘original’ é muito mais rico do que se imagina

Acontece que, após o dia 10 de maio de 1988, data de sua emancipação do domínio de Marabá, Parauapebas deu origem a dois outros municípios e, por isso, perdeu muito e ganhou muito. A intensidade do lucro ou do prejuízo depende do interesse dos envolvidos e da ótica a partir da qual for analisada.

Em 1991, a Lei de número 5.694, do dia 31 de dezembro daquele ano, deu vida ao primeiro bebê de Parauapebas: Água Azul do Norte. Três anos mais tarde, na gestação de 5 de outubro de 1994, por força da Lei 5.860, veio o caçula: Canaã dos Carajás.
Foram partos de alívio à época, visto que hoje, ter um município com quase o triplo do tamanho para administrar, com povoados e vilas espalhados pelos quatro pontos cardeais, não seria brincadeira.

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PERDAS
Parauapebas perdeu parte das riquezas que mais lhe fazem felizes com a emancipação de suas crias, e só foi saber disso décadas depois, não obstante terem ficado consigo os minérios de ferro e manganês. Ao entregar Água Azul do Norte, em 1991, foi embora junto a área onde hoje está instalado o projeto Onça Puma, uma verdadeira mina de dinheiro sobre uma reserva de ferro-níquel e cujas terras pertenciam, inicialmente, ao município de Água Azul, mas, por questões políticas, foram parar em Ourilândia do Norte, que até bem pouco tempo lucrava entre R$ 3 e 4 milhões mensais com arrecadação da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM).

Ao abrir mão de Canaã dos Carajás, em 1994, Parauapebas perdeu sem querer, querendo, a mina de cobre do Sossego e aquele que em breve fará de Canaã um superParauapebas: o megaprojeto S11D, o mais novo xodó da mineradora Vale e no qual ela está centrando forças. Só com o cobre que hoje faz a alegria de Canaã dos Carajás, Parauapebas deixou de faturar nestes anos todos cerca de R$ 200 milhões. Em 2012, Canaã recolheu em royalties de mineração quase R$ 37 milhões.
E há mais leite derramado. Além de perder as commodities minerais (níquel em Água Azul do Norte; cobre e ferro em Canaã), Parauapebas também perdeu terreno para esparramar a pecuária, a maior fonte de sobrevivência de Água Azul do Norte. Isso porque nas terras água-azulenses pastam neste momento 546 mil bois e vacas, praticamente 20 cabeças de gado por habitante e quatro vezes o rebanho de Parauapebas. Hoje, o município que teve seu níquel anexado ao vizinho é grande exportador de carne desossada, um negócio que lhe dá visibilidade mundo afora e que, no ano passado, valeu mais de 15 bilhões de dólares.

Em Canaã, a relação com o mundo exterior tem sido a melhor possível. O cobre do município está em total sintonia com a Bulgária, Coreia do Sul, Alemanha, China, Índia e Suécia, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. O caçulinha de Parauapebas saiu do anonimato no final da década de 2000 para tornar-se hoje o 4º maior exportador paraense – atrás de sua mãe, de Barcarena e de Marabá – e o 83º município brasileiro de prestígio internacional, com R$ 144,6 milhões fechados em negócios de concentrado de cobre com os gringos apenas nos três primeiros meses deste ano. Os três juntos, exportando como um só, seriam imbatíveis na balança comercial brasileira.

Atualmente, se seus dois filhos estivessem sob sua batuta, Parauapebas teria um impressionante Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 17,7 bilhões e estaria pau a pau com Belém, cujas riquezas somam R$ 18 bilhões. Seria uma ameaça à hegemonia da capital paraense, que certamente tombaria na apuração de PIB deste ano realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
E mais: se hoje Parauapebas é, sozinho, o 33º município mais rico do Brasil, de posse de Canaã e Água Azul, ele avançaria quatro posições, deixando para trás quem o incomoda na escalada ao topo, a saber: Santo André (SP), com PIB de R$ 17,3 bilhões; Ribeirão Preto (SP), R$ 17 bilhões; Canoas (RS), R$ 16,5 bilhões; e Sorocaba (SP), R$ 16,1 bilhões. Ninguém iria segurar a trindade, que se encostaria na capital maranhense, São Luís, e daí para atropelar Belém seria apenas um projetinho de R$ 300 milhões, algo que a mineração no trio movimenta em apenas um mês.

GANHOS
Nem tudo são flores, entretanto. Se continuasse unida, Parauapebas sofreria com pressões políticas e de movimentos sociais e seria praticamente inviável cuidar de 230 mil habitantes a ermo, num espaço em que seus extremos chegariam a 500 quilômetros em linha reta.
Nesse mesmo espaço gigante, de mais de 17 mil quilômetros quadrados, praticamente do tamanho do município de Marabá, a floresta seria sua perdição, literalmente. Parauapebas “grande” teria cerca de 9,4 mil quilômetros quadrados de área de mata intacta e iria à loucura para tentar deter a sanha dos vilões da floresta, que atualmente atacam Água Azul do Norte, sendo a agropecuária sua faceta mais voraz. O próprio rio que lhe emprestou o nome, o Parauapebas, nos dias atuais sofre as dores da ausência de fiscalização ambiental por parte dos órgãos competentes. Assoreamento e poluição são apenas parte de um drama que vai além dos olhos, como a perda de diversidade de ictiofauna e afugentamento de espécies outras que dependem do rio, como jacarés, ariranhas, lontras, capivaras e sucuris. Com três corpos num só município, o descontrole do processo seria total, dadas as distâncias a percorrer.

Com grandes projetos anunciados para Canaã dos Carajás, este município tem captado para si alguns habitantes e problemas de Parauapebas. Todos os dias, a vizinhança desembarca por lá levando na mala a esperança de conseguir um lugar à sombra na fronteira da mineração. Os problemas vão a reboque, na mesma bagagem, denotando que a relação familiar entre ambos os municípios é problemática por natureza. O detalhe é que, se os três municípios do Parauapebas original vivessem uma só vida, firmes e fortes, eles comporiam um dos maiores bolsões de pobreza do Pará.
O Parauapebas inicial teria hoje quase 45 mil pessoas vivendo na miséria e na indigência, dez mil delas passando fome em algum lugar do grande território. A vantagem de cada um ter tomado seu rumo foi a deslocalização da pobreza para a localização individual: cada qual cuidando do seu quadrado.

Além do mais, o Parauapebas de hoje, se fosse o grande, não estaria no topo dos índices de qualidade de vida e desenvolvimento em nível de Pará, já que seus pontos negativos se somariam aos de seus filhos, donos de índices relativamente piores e muito mais agressivos.
O grande Parauapebas, neste raiar de 25 anos, estaria quatro vezes mais lotado e com uma renda média mais baixa, sem falar dos problemas graves em saúde pública que fariam convergir a sua sede urbana todas as mazelas e enfermidades espalhadas em suas entranhas.

Ainda assim, o Parauapebas único, esse que restou, é ganancioso e vaidoso por números pujantes. Os administradores, que, com tantos recursos, pouca coisa fizeram em benefício da população, bem que gostariam de ter, hoje, o níquel de Onça Puma e a farra do boi em Água Azul, assim como o cobre do Sossego e o ferro de S11D, em Canaã.
Os sucessivos gestores de Parauapebas parecem ter herdado de ingleses o espírito de pirata para saquear as riquezas e sempre procurar o mar de onde sai mais, sem saber o que fazer com o que já eles têm disponível e, bem assim, vivendo perigosamente e vendo afundar tudo o que ajuntaram, sem dar a devida destinação ao tesouro.
Desta feita, não há mina de dinheiro que dê conta, tampouco terras a mais e terras de menos para resolver problemas graves e crônicos que perturbam e florescem diariamente, indiferentes a pouca idade e a muita riqueza.

Reportagem: André Santos

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