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Marabá é o maior centro de compras do interior amazônico

Enquanto a Prefeitura de Marabá cai em desgraça, por conta de águas passadas e decisões judiciais insanas que penalizaram a administração pública municipal e a travaram na atualidade, a população responde, no comércio local, andando, espiando e gastando, aparentemente. Nem mesmo a paralisação da máquina pública ou os baixos salários pagos por uma das maiores empregadoras da região (a prefeitura) é suficiente para fazer o consumidor se intimidar e sossegar o facho do bolso.

O mais movimentado centro regional do interior amazônico, excluindo capitais de estados, tem mudado radicalmente a sua dinâmica de mobilidade urbana em razão de um sonho antigo, que ainda está em 40% de processamento da realidade: o Shopping Pátio Marabá. O centro de gastança, além de ter dado um “up” na geração de empregos no município, está a promover transformação nas manhãs, tardes e noites da quarta mais populosa cidade paraense.

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Pouco tempo atrás, por exemplo, as tardes de sábado de Marabá – em termos de movimento de ônibus coletivo, táxi-lotação, mototáxi e táxi convencional – eram monótonas. A diversão, o lazer e o entretenimento desembocavam na Velha Marabá, o tradicional “point” da cidade.
Tudo mudou a partir de 7 de maio deste ano. Desde esse dia, quando o shopping abriu suas portas, as tardes de sábados, domingos, feriados e dias santos revigoraram-se. Os coletivos urbanos circulam lotados entre os extremos da cidade, num vai e vem frenético em que embarca desde a curiosidade até a vontade de soltar a cobra do bolso. É verdade que ônibus cheio jamais foi sinônimo de boas vendas em shopping, mas é um termômetro de que o potencial de consumo está disposto a mostrar a cara.

A estimativa por parte da AD Shopping, que administra o imponente monumento edificado à beira da Rodovia Transamazônica, é de que ao menos 15 mil pessoas passeiem pelo centro de compras diariamente. Sendo verdade esse número, é sete vezes maior que o movimento do Tucuruí Shopping Center, na cidade de Tucuruí, a 255 quilômetros; e três vezes maior que a circulação pelo vizinho mais próximo, o Unique Shopping Parauapebas, a 167 quilômetros e por onde não mais que cinco mil pessoas transitam.
Aliás, com o Pátio, Marabá tem se tornado uma espécie de rota de “turismo do consumo”, para além do “tur” que seus próprios habitantes já fazem, deslocando-se de um núcleo a outro para descer e subir escada rolante, bem como paquerar vitrines. Os finais de semana marabaenses estão sendo invadidos por consumidores de Parauapebas, Tucuruí, Redenção, Xinguara, Jacundá, Itupiranga e Eldorado do Carajás, que vêm para cá conferir a “sensação do momento” e, é claro, deixar um trocado. Não é de hoje, a propósito, que consumidores do estribado Parauapebas dos minérios ou de Xinguara do boi gordo são vistos aos montes fazendo compras em Marabá, cujo comércio é mais forte e diversificado em relação ao das cidades de seu raio de influência.

ESPERANDO NO PÁTIO
Mesmo sem as tão aguardadas salas de cinema e sem que esteja operando a plenos pulmões, o Shopping Pátio já se tornou local de encontro para amigos e até “ambiente de estudos” para universitários que, para matar aula, só tem uma pista de motivo, haja vista o shopping se localizar, estrategicamente, de testa a uma faculdade particular, do outro lado da BR. Uma vez dentro de seus 32.538 metros quadrados, adeus o mundo lá fora.
Quando acaba o entusiasmo de bater canela, de encantar-se com a novidade da cidade média ou quando bolsas e carteiras dão o último suspiro, é hora de voltar à realidade. Do lado de fora do sétimo maior shopping da Região Norte (os maiores que ele estão todos em Belém e Manaus), mototaxistas e taxistas posicionam-se como uma alcateia para carregar os consumidores, geralmente vencidos pelo cansaço.
Pátio afora, literalmente, mototaxistas riem às paredes. Quando se deparam com desavisados turistas, que não sabem as distâncias de Marabá, está dado o golpe. Os táxis-lotação também chegam e partem bufando consumidores e funcionários das lojas do shopping. Quem tem automóvel leva a família inteira para se divertir no centro de compras, que está até desviando um pouco das atenções. Alternativa de lazer para aqueles que, mesmo neste verão, não curtem a Praia do Tucunaré.

VEM MAIS POR AÍ
Na esteira de se consolidar destaque comercial do Norte e Nordeste do Brasil, todos os sinais focalizam Marabá. A disputa, agora, é para ver quem aguenta o tranco na guerra para dominar o mercado interno, farejado por titãs. Planejando não ficar para trás, por exemplo, o “Shopping” Verdes Mares, que, desde sua inauguração, jamais passou de uma galeria, está botando para quebrar em obras de revitalização e – agora, sim – tornar-se-á o segundo shopping center da cidade. Dificilmente desbancaria o Pátio Marabá, mas, com uma sala de cinema, já deixa atordoados os consumidores e promete fazer mais barulho que o Unique Shopping Parauapebas.
Na geografia do comércio marabaense, evidencia-se, entretanto, a superconcentração bestial de investimentos no núcleo Nova Marabá, enquanto a Cidade Nova – núcleo mais populoso e, segundo as estatísticas, o de classes sociais com mais alta renda – fica a descoberto.

À Nova Marabá já aportou o supermercado maranhense Mateus, que arrebentou o mineiro Rede Valor, embora ninguém assuma publicamente. O peso do confronto é praticamente o mesmo do perfil demográfico do município de Marabá, onde atualmente vivem 48.300 maranhenses ante 3.699 mineiros. De vez em quando, assim que surta, os preços do Mateus são um acinte à concorrência.
Ex-clientes do Valor podem ser encontrados empurrando carrinhos cheios na Folha 31, a 2.500 metros da Folha 27. Bem assim, o atacarejo do Mateus, na Cidade Nova, pode até parecer que não emplacou, já que não fez muito barulho, mas deixou o Alvorada parecendo cenário de velho oeste.

Ainda assim, é realmente a Nova Marabá o xodó dos investidores. Sem levar em conta que grande parte da população tem de fazer um trajeto penoso de outros núcleos para chegar à Transamazônica, a rede Líder de supermercados, vinda de Belém, já está armando seu tundá na cidade, a 250 metros do Shopping Pátio Marabá. Embalada nos números pujantes do potencial de consumo local e regional, a rede planeja fazer um supercenter, correndo todos os riscos comuns de não vingar, já que terá de enfrentar a rival Y. Yamada, que também está descendo a PA-150 de mala e cuia rumo aos R$ 2,75 bilhões que correm apenas em Marabá.
Espertinha, a Leolar, rainha e manda-chuva do ramo lojista no sudeste paraense, já anunciou parceria com a Yamada para não ter de enfrentá-la e, talvez, levar a pior, já que a variedade de produtos e os preços praticados pela rede belenense são agressivos.

Outros grandes empreendimentos comerciais estão de olho no mercado de Marabá, que, sem dúvida, é a cidade mais rica do interior do Pará, embora Parauapebas seja o município mais rico (e aqui cabe esclarecer que município e cidade são unidades territoriais distintas e, por isso mesmo, nem de muito longe, a sede urbana de Parauapebas tem o movimento comercial de Marabá). Formosa, Nazaré, Casas Bahia, Magazine Luiza, entre outros, já sabem que Marabá não é brinquedo, não.

Entre investimentos no comércio, na indústria e em infraestrutura urbana, até 2016, a previsão é de que Marabá e entorno recebam uma injeção de R$ 30 bilhões, um volume só menor que o que está programado para Altamira, R$ 47 bilhões. Nem Parauapebas e entorno, com R$ 25 bilhões previstos, a maior parte direcionada a Canaã dos Carajás, já viram tanto dinheiro.
Em nível local, resta aos empreendedores promover a espacialização dos investimentos e redescobrir outros núcleos urbanos como “mecas de consumo”, a fim de não perderem potenciais consumidores para concorrentes vizinhos e para a indisposição de bolsas e carteiras em cruzar a cidade. Os potenciais clientes almejam ter um centro de compras mais próximo de casa.

COMÉRCIO NOS NÚCLEOS URBANOS
Saiba quantos são, onde estão e que tanto os consumidores têm na carteira

Cada cidadão de Marabá tem, em média, para torrar no comércio local nos 12 meses deste ano R$ 11.044,18. A conta, que é per capita, inclui até quem nada tem para gastar e também quem não recebe remuneração para fazê-lo. Na essência do cálculo, é possível dizer que, dos R$ 1.233,02 que, em média, o marabaense trabalhador recebe por mês, R$ 920 vão ser dissolvidos no comércio local, da cibalena ao carro zero quilômetro.
No panorama comercial intraurbano, a Velha Marabá assumiu posto de principal centro de compras desde os tempos de “Maraburgo” (quando a cidade despontou como burgo, em 1896). Mas acabou enfraquecida pelas forças da natureza, diversas vezes, ao perder a batalha para o Rio Tocantins, que, ao deixar a comunidade debaixo d’água nas grandes cheias, fez com que vários comerciantes migrassem para os outros núcleos populacionais embrionários ou com algum desenvolvimento.

O crescimento demográfico da Velha é o menor entre os cinco núcleos populacionais (os demais são Nova Marabá, Cidade Nova, Morada Nova e São Félix). A população passou de 12.020 habitantes em 2000 para 14.139 em 2013, evolução pífia justamente por conta da forma comercial assumida pelo núcleo.
Embora não existam estatísticas da parte do município, com base nos dados da consultoria de mercado IPC Marketing Editora, a de maior prestígio do país, é possível visualizar que este ano serão deixados no comércio da Velha Marabá ao menos R$ 156,15 milhões dos R$ 2,75 bilhões que os consumidores marabaenses têm para gastar. É um volume tão grande de dinheiro que daria para forrar de oncinhas-pintadas metade da extensão ocupável da Praia do Tucunaré ou fazer um lindo tapete amarelo com manchas pretas pela Avenida Antônio Maia. Para receber esse volume de recursos, quatro agências bancárias se posicionaram historicamente perto umas das outras para disputar a preferência dos comerciantes e dos correntistas.

Mesmo assim, a Velha Marabá sucumbiu aos ventos urbanos que partiram bambuzal afora. Hoje, inegavelmente, o mais dinâmico centro comercial da cidade está na Nova, que, embora tenha surgido para se tornar residencial, verticalizou sua vocação. Até mesmo o comércio do núcleo Cidade Nova, com o passar dos anos, tornou-se mais forte que o da Velha, que, entre rios e isolamento peninsular, não teve condições de se expandir territorialmente.

MAIS POPULOSOS
Com 86.460 habitantes em 2013, o complexo Cidade Nova cresceu dois “Eldorado do Carajás” nos últimos 13 anos. Em 2000, sua população era de 55.232 residentes. Nos micropolos econômicos de seus bairros principais (o bairro-sede, o Liberdade, o Novo Horizonte, o Belo Horizonte e o Amapá) esconde-se uma população que tem R$ 954,88 milhões de bala na agulha.
Estão aí nesse núcleo, aliás, os ricaços da cidade (ou mais da metade deles), escondidos entre uma mansão e outra no discreto Bairro Novo Horizonte. E também é nesse complexo populacional que se encontra a Praça São Francisco, coração financeiro do Bairro Cidade Nova, um dos metros quadrados mais caros do sudeste paraense e em torno da qual quatro agências bancárias deixam as portas abertas para abocanhar o suor de cansaço do consumidor. No núcleo, há ainda outra agência bancária no Bairro Amapá.

Não obstante, na última década, todos os ares comerciais apontaram – e continuam a apontar – na direção da Nova Marabá. O corredor financeiro-comercial formado pelas vias expressas, as chamadas VPs, atraiu uma ruma de bancos (oito, no total) que faz de Marabá, disparadamente, a maior praça bancária do interior do Estado, voltando a assumir, em grande estilo, o mesmo posto que ocupara nos tempos áureos do garimpo, quando o Brasil financeiro todo se concentrava aqui. Mas, como esse Brasil financeiro era literalmente interesseiro, partiu em retirada com a decadência de Serra Pelada, levando Severina Chique-Chique e as boutiques.
A propósito, o cinturão econômico em forma de “S”, que começa pela Avenida Nagib Mutran (Cidade Nova), penetra a Antônio Maia (Velha Marabá) e chega à VP-8 (Nova Marabá) pelas avenidas Transmangueiras e Verdes Mares, rivaliza-se com alguns dos centros comerciais de interior mais dinâmicos do Nordeste, como Imperatriz (MA), Caruaru (PE), Juazeiro do Norte (CE), Itabuna e Vitória da Conquista (BA).

A Nova tem hoje 75.589 habitantes, uma Itupiranga de diferença em relação aos 51.801 moradores que possuía 13 anos atrás. Seus terrenos espaçosos são um convite ao investimento, muito embora o preço do metro quadrado seja desanimador e até faça muitos investidores correrem léguas. Ainda assim, o grande trunfo da Nova Marabá está em seu potencial de consumo: a população deve gastar cerca de R$ 834,82 milhões no comércio do núcleo, que também roubará 35% do quase R$ 1 bilhão dos consumidores do núcleo Cidade Nova, o qual, por ser o complexo de bairros mais populoso, é o principal mercado urbano em potencial.

MANOS DISTANTES
Apesar da Velha, da Nova e da Cidade Nova serem os núcleos de maior potencial de consumo da cidade e, bem assim, de maior visibilidade, não se pode ignorar o poder de compra dos consumidores dos núcleos São Félix e Morada Nova. São eles – e sobretudo eles – que viajam até 30 quilômetros, cruzando a ponte sobre o Rio Tocantins, para gastar com prazer. Junto, esse pessoal tem um potencial financeiro de deixar qualquer Jacundá com inveja.

O São Félix tem atualmente 13.800 habitantes, apresenta a maior taxa de crescimento demográfico da cidade e sua população potencialmente poderá gastar quase o mesmo tanto que a Velha Marabá este ano: R$ 152,41 milhões. Morada Nova, por seu turno, conta com 10.024 moradores, que têm R$ 110,71 milhões no bolso.
Ambos os núcleos têm razoável vida comercial, mas sua população prefere se deslocar aos núcleos maiores para pechinchar e comprar, mesmo porque as agências bancárias estão concentradas em “Marabá”, como dizem os moradores destes núcleos. O distanciamento intraurbano lhes confere a impressão de que residem noutra dimensão que não seja a mesma cidade à qual se reportam. É a cidade de Marabá crescendo no comércio e, ao mesmo tempo, distanciando-se na visão espacial de consumidores localizados em mercados que ainda não foram descobertos nem por eles próprios.

Reportagem: André Santoa

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